sexta-feira, setembro 07, 2007

Sexta pista: a nossa história está na História

(continuação)

Subi alguns degraus até à entrada do museu e fiquei algo espantada por ver lá o João!

- Por cá?
- Olá! Então que andas por aqui a fazer?
- Eu... olha, vi publicidade à exposição temporária e vim cá dar uma vista de olhos! Quanto custa?
- É grátis, está patrocinada por um banco qualquer.
- Ah, ok! Vou dar uma vista de olhos... que fixe ver-te aqui! A ver se nos encontramos um dia destes.
- Espera, toma lá o folheto com o mapa cá do sítio! Viras ali à direita para começar.
- Obrigada!

Pisquei-lhe o olho e segui pelo corredor, virei à direita tal como ele me disse, mas o local estava cheio de setas de qualquer modo. Cocei o pescoço por reflexo. Entrei na sala e fiquei maravilhada com algumas peças, fico sempre perdida não só pelo modo como está tudo tão bem pintado, desenhado e “recortado” como pelo facto de tudo aquilo ter uma mensagem subjacente e um significado que eu não compreendo totalmente. Senti que a minha busca pela sétima e última pista tinha toda a lógica em estar ali. Mistérios e mais mistérios que não vão ser desvendados porque já se perderam no tempo. Nas areias do tempo é capaz de ser uma expressão mais conveniente...

Depois de ter demorado imenso tempo a ver a sala (tinha tempo), abri o mapa para ver para onde tinha que me dirigir e descobri que o meu mapa não era apenas da sala, nem sequer da exposição ou do museu. O meu mapa estava “ligeiramente” alterado. Conseguia ver alguns corredores do museu, mas tinha outro mapa desenhado por cima. Era um mapa da cidade, ou parte dela, e tinha uma bola encarnada no sítio do museu. Essa bola encarnada era a referência à sala temporária onde me encontrava no mapa original. Um bocado a custo, lá entendi que a exposição tinha apenas outra sala do outro lado do corredor e dirigi-me para lá. Não vi grande coisa da segunda sala, tinha bem presente que tinha andado a última hora e tal com a sétima pista nas mãos e nem um olhar lhe tinha deitado... Apercebi-me de repente que o João também estava metido naquilo! A minha esperança acendeu de novo e tive bastantes dificuldades em acalmá-la, a caixa na minha mala também não me ajudava a esquecer do que eu queria acreditar.

Olhei para o mapa com cuidado, visto não me conseguir concentrar nas jarras canópicas onde os egípcios colocavam alguns orgãos dos mortos (sim, dos vivos era capaz de ser chato). O mapa não estava completo e a única coisa realmente desenhada era o local do museu e do rio. Mas não estava propriamente claro em que zona do rio é que estava a resposta e o raio da cidade está praticamente rodeada de água! Reparei melhor no mapa original e existia um quadrado onde alguém tinha pintado quatro quadradinhos por cima das pontas do quadrado original. O quadrado grande ficava mesmo na zona do rio, supostamente seria uma sala qualquer no primeiro piso do museu, mas ali podia muito bem significar uma plataforma quadrada no rio... E aquela forma de plataforma não era completamente desconhecida. Estava tão contente que deixei as múmias para a próxima visita, elas também não iam longe. De qualquer modo, ainda me demorei na loja do museu onde comprei um escaravelho para recordação. Na saída voltei a passar pelo João.

- Safado, estás metido nisto!
- Não acredito que só te vais embora agora. Pensei que já tivesses saído e eu não te tinha visto!
- Só reparei agora no mapa adulterado que me deste! Eu sou um bocadinho lenta, tens que ter paciência e...
- Despacha-te, vai lá embora depressa, mexe-te!
- Mas qual é a pressa?
- É que eu já avisei que tinhas saído...
- Ah sim? Quem é que avisaste? Como sabes que vou para o sítio certo? Ajuda-me!
- Ora, deixa-te lá disso, pisga-te!!
- Se fosse contigo queria ver...
- Despacha-te miúda!! Ele está à espera, não tarda perdes o pôr-do-sol!

sexta-feira, agosto 31, 2007

Quinta pista: do esterco ao sol

(continuação)

Uma das primeiras coisas que aprendi sobre estes escaravelhos (e que adorei) é que simbolizavam o deus-sol. Ora o que é que este deus fazia? Entretinha-se a mover o sol no firmamento, o que é extremamente parecido (ou não) com um escaravelho a mover a sua bola de excremento. Sim senhora, temos um escaravelho que gosta de colocar os seus ovos em locais pouco... comuns, vá. Está ligado ao deus-sol, assim como ao renascimento, renovação e ressurreição. A primeira coisa que me ocorreu foi a campanha dos R's para apelar à reciclagem. A minha mente aterrou literalmente no Egipto e o meu pensamento estava todo enrolado em hieróglifos. Via escaravelhos, burros, o Romeu e a sua Julieta a escrever postais, além de uns tantos escaravelhos a sair da fonte da rotunda lá em baixo.

O que me chamou à razão e devolveu à terra com alguma racionalidade foi o meu estômago: comida! Pois sim, já era quase hora de almoço e eu não tinha preparado nada. Apesar de me apetecer fazer qualquer coisa para me distrair, só via escaravelhos à frente portanto decidi ir almoçar fora. O barulho dos carros e das pessoas distraiu-me facilmente das areias e pirâmides egípcias, mas continuava com os escaravelhos à volta. Especialmente depois de ler que um “primo” africano desses escaravelhos podia atingir os 9cm. Isso é quase a minha mão aberta, uma escala no piano! Se um destes me aparecesse à frente, ainda era capaz de esfregar os olhos umas duas vezes para ver se estava a ver bem antes de fugir.

Lá desci a rua alegremente, com a mala a tiracolo e um livro na mão, livro esse cheio de bilhetinhos e um postal. Entrei num restaurante qualquer que me pareceu ter uma lista simpática para sábado e escolhi um lugar virado para a rua. Cada vez que saio de casa é para ir para longe, até me esqueço de sair e passear nas redondezas. O facto de estar ali sentada a olhar para a minha rua de sempre causava-me um certo bem estar pela noção de familiaridade. Suponho que as surpresas já estavam em grande número só para um dia e permiti-me a um certo relaxamento. Olhei em volta para chamar um empregado e reparei que alguém tinha deixado um daqueles jornais grátis que distribuem no metro em cima de uma cadeira. Resolvi folheá-lo só para passar o tempo. De repente voltei a sentir-me estúpida, mas desta vez era uma mistura de estupidez e ignorância pura.

Num dos cantos reservados à publicidade, lá estava um aviso sobre uma exposição egípcia com algumas coisas trazidas de outros museus europeus. Uma exposição egípcia ali na minha “terra” e eu não tinha dado por nada?! Tenho mesmo que prestar mais atenção ao sítio onde vivo. Confesso que fiquei altamente envergonhada e, apesar de não saber quem estava por trás das pistas, desejei secretamente que não se tivesse apercebido daquela minha falha. Soava-me a coisa grave, afinal, eu nunca fui uma grande fã de História, mas a coisa mudava de figura quando o Egipto, a Suméria ou a Grécia entravam em cena (não por esta ordem, claro). O almoço chegou finalmente... tentei comer devagar, mas a excitação e curiosidade cresciam tanto dentro de mim que me vi no metro enquanto o diabo esfrega o olho. A viagem ainda demorou um bocado, mas quando saí da estação e olhei os grandes cartazes com escaravelhos na parede do museu, senti o dever cumprido. Mesmo que não descobrisse a sétima pista, tinha chegado à sexta e isso tudo numa manhã de sábado era de louvar.

sexta-feira, agosto 24, 2007

Quarta pista: recordar é viver

(continuação)

Uma vez fora da loja, encostei-me a um canto do passeio e abri o telemóvel para ver a MMS. Era novamente de ninguém (por assim dizer) e demorei um bocado a perceber o que era a imagem. Ao fim de olhar para a imagem umas tantas vezes, reenviei-a para um amigo meu especializado no assunto com o seguinte texto: “Isto é o dartacão, não é?!”. Só não levantei o sobrolho enquanto reconhecia a imagem porque não consigo fazer isso só com uma sobrancelha. Mas continuo a achar que dá estilo conseguir e é útil, em situações como esta, por exemplo. A resposta foi mais rápida do que eu esperava: “Yeah, mas porque é que queres saber?”. Se eu soubesse a resposta... Pelo menos tinha a certeza do que os meus olhos viam e o meu cérebro não queria acreditar: o dartacão era a minha quarta pista. Sim senhor, mais estranho começava a ser difícil.

Voltei para casa e usei essa bela ferramenta que dá pelo nome de “You Tube”. Confesso que me agradou rever o genérico dos desenhos animados. Reparei também numa mensagem simpática que aparecia e que eu nunca tinha dado conta, qualquer coisa como “esta série baseada na história de Alexandre Dumas pretende enaltecer duas virtudes que nunca devem ser esquecidas: honra e amizade”. Catita, sim senhor! Ora Alexandre Dumas (pai)... eu tinha a certeza que dele só tinha o “O conde de Monte Cristo”, portanto a pista não devia ser por ali. Estava a começar a ficar com umas ideias muito retorcidas e já achava que a pista tanto podia estar no meu cão (que não tem muito de mosqueteiro, nem de moscãoteiro, já agora), como no facto da cadela se chamar exactamente Julieta e estar ligada ao livro “Romeu e Julieta”. Pelo sim, pelo não, saí e fui até ao jardim. Chamei o meu cão, brinquei com ele e examinei-lhe a coleira com cuidado, apesar dele não estar a achar muita piada ao facto. Deixei-me estar a brincar um bocadito mais com ele, só para ter a certeza que não o ia levar ao veterinário e que ele escusava de fugir.

Segunda ideia mirabolante: Shakespeare. Esta ideia ainda era pior do que a outra porque, novamente, eu tinha o livro errado. Li vezes sem conta o “Sonho de uma noite de Verão”, mas não metia o dartacão (só um homem transformado em burro) nem a Julieta. No final, decidi abrir também o exemplar de “O conde de Monte Cristo”, mas não tinha lá nada que me ajudasse sem ser a história (belíssima por sinal, a personagem da “escrava” Haydée seduziu-me por completo). Perdi-me um bocado a relembrar estas histórias e a pensar em como o ódio pode ser quase tão bom como o amor no que toca à sobrevivência. Entretida pela redescoberta destas “grandes” histórias perdidas na minha memória, percorri as várias prateleiras de livros que tenho quarto. Muitos livros de Júlio Verne, um dos meus autores favoritos. E eis que no final da prateleira mais alta estava um exemplar dos três mosqueteiros de Alexandre Dumas, bem arrumado e mais perto da minha testa do que dos olhos, parecia ter estado sempre ali.

Abri o livro, virei-o do avesso e abanei-o vigorosamente. Caiu um pequeno rectângulo de papel branco. Estava manuscrito com letras maiúsculas: “NUNCA LI O LIVRO, MAS DIZEM QUE É BOM. ATÉ GOSTEI DO FILME. NEM ACREDITO QUE NÃO O TINHAS! SÓ ME DÁS TRABALHO! JÁ AGORA, PODES FICAR COM ESTE” Virei o papel ao contrário e tinha um escaravelho egípcio impresso, daquele tipo dos que vemos nos filmes a “comer” pessoas, como na “Múmia”.

sexta-feira, agosto 10, 2007

Terceira pista: usar a realidade

(continuação)

Liguei o computador novamente, mas desta vez fui direitinha ao mail. Lembrei-me da última pesquisa no google e como podia ter visto o mail mais cedo. É certo que agora não podia fazer nada, mas não conseguir evitar a sensação de que podia ter chegado ali mais depressa. O triste de ter mais de uma conta para estas coisas é que nunca sabemos exactamente quem usa qual. Abri todas e fiquei ansiosamente à espera de um mail sem “viagra” no cabeçalho. Antes de desanimar por completo, li o SPAM de alto a baixo. Efectivamente o filtro fez uma boa separação (não pode correr sempre mal). Estava desolada, ou não tinha percebido qual mail era o certo, ou realmente a pista não apontava para ali. Ora bem, já que estávamos em Portugal, dirigi-me ao correio em cima da mesa da entrada. Vasculhei as contas todas e não encontrei nada digno de registo. Lá me calcei e desci até à caixa de correio. Finalmente qualquer coisa! Um postal ilustrado sem selo. Pareceu-me bem, soava a pista. Não tinha nome, mas tinha uma rua.

Sentei-me ao computador (novamente), procurei onde é que a rua ficava e não fui lá muito bem sucedida. Procurei nos mais variados sítios e nada, a rua não existia e se existisse não era neste país, o que não me ajudava em nada de qualquer modo. Ocorreu-me subitamente que mais importante do que saber o que se escondia no postal era mesmo tomar o pequeno-almoço. Saí de casa, mas só depois de inspeccionar rapidamente todas as divisões em matéria de candeeiros ou coisas estranhas deixadas nos móveis. Nada... decidi então dar toda a minha atenção a um croissant de chocolate na pastelaria no final da rua. Quando acabei, tirei o postal da mala e fiquei a olhar para ele. Não tinha selo, não tinha nome, não tinha mensagem, só aquela rua “desaparecida”.

Apesar de tudo, tinha um forte pressentimento dentro de mim. Saí da pastelaria, percorri as ruas banhadas com o sol fraco das dez da manhã (vista rara para mim) e entrei num supermercado mais escondido, mais calmo. Não saía de casa com vontade de ver nada há alguns dias, achei que a dor estava a passar, mas pelas razões erradas. Não entanto, não evitei um leve sorriso quando vi que ainda havia uma caixa, comprei-a, escondi-a dentro da minha mala e esperei que o meu sexto sentido, tão poucas vezes usado, estivesse certo. Se calhar era só uma dose gigantesca de esperança seguida de um grande balde de água fria. Tentei não pensar que estava certa, era melhor esperar para ver. Mas a luzinha cá dentro recusou-se a apagar, o que me obrigou a escondê-la o melhor possível para não pensar nela. Nestas voltas onde brigava com o meu próprio pensamento, dei por mim na rotunda mais bonita e mais movimentada ali do sítio. Parei por momentos a olhar para a estátua a jorrar água, impassível no meio de tanto carro e senti-me mesmo estúpida.

Estúpida por duas razões (e haviam mais de certeza, mas pronto), primeiro porque tinha parado de repente no meio do passeio e levei com uma gorda qualquer, em segundo porque aquela rotunda era a imagem do postal! Incrível como não ligamos às coisas perto de casa, bem que a imagem do postal me parecia familiar mas, pronto, fontes em rotundas é o que não falta nas capitais europeias. Senti um nervoso miudinho a correr o meu corpo porque não sabia o que fazer a seguir. Resolvi rodear a rotunda a pé, podia ser que me estivesse a escapar algo. Quando dei precisamente metade da volta, olhei para o sítio de onde tinha saído e vi um pequeno quiosque com alguns postais num mostrador exterior. Disse algumas asneiras entre dentes e voltei ao sítio de onde tinha saído. Vi imensos postais iguais ao meu enquanto entrava na loja. Eu levava o postal na mão e a moça que estava a atender reparou nele. Riu-se e só me disse:

- Não estava à espera que chegasse cá tão cedo!
- Estava à minha espera?!

Não me respondeu, mas riu-se e achei que a minha pergunta era retórica de qualquer modo. Ela pegou num telemóvel, pediu-me para esperar e, pouco depois, foi a vez do meu telemóvel tocar. Ri-me desconfortavelmente e suponho que tinha um ar de quem não controla nada do que se está a passar, um bocadito miserável porque comecei a duvidar se conseguia chegar ao fim.

- Não fique assim! Vai ver que é uma boa surpresa!

E piscou-me o olho. Eu acreditei. Acreditei numa pessoa que eu nunca tinha visto na minha vida. Acreditei porque obviamente ela fazia parte do jogo e eu não tinha como duvidar. Fiquei com a ideia que Lisboa inteira sabia o que eu não sabia. O que estava no final das sete pistas. Lembrei-me do pote de ouro no final do arco-íris... que também tem sete cores. Desejei que não fosse ouro, de qualquer modo. Respirei fundo e ainda perguntei, antes de olhar para a MMS que tinha acabado de chegar:

- Não me vai ajudar a decifrar, pois não?
- Não, até porque não sei o que é. Mas mesmo que soubesse, acho que prefere chegar lá sozinha!

Se calhar nem preferia, mas pronto, não tinha hipótese. Agradeci e comprei uns rebuçados só para não parecer muito mal-educada. Estava um bocado atordoada.

sexta-feira, agosto 03, 2007

Segunda pista: não desmoralizar

(continuação)

Enquanto vasculhava as gavetas todas da minha cómoda, pensava como raio não me tinha apercebido que o baton era importante assim que vi a seta marcada na minha pele. Eu não uso baton, portanto foi trazido por alguém e deve estar algures no meu quarto... desejei intimamente que estivesse naquela cómoda porque a minha maior qualidade não é a arrumação, definitivamente. Chateei-me um bocado, tirei as gavetas e virei-as todas do avesso. Mas nada de baton. Senti-me um bocadito frustrada, a descoberta da primeira e ousada pista tinha despertado ainda mais a minha curiosidade. Sem ligar ao cabelo molhado, estendi-me no chão com a máquina fotográfica (porque a cama estava cheia da tralha das gavetas) e passei as fotografias das minhas costas. Ao fim de uns dez minutos, o sorriso no final da frase já me parecia um completo gozo à minha incapacidade de entender o que estava escondido na frase. Por fim desisti e posei a máquina ao meu lado, fechei os olhos e tentei distanciar-me das últimas ideias mirabolantes (porque, pelo menos, tinha a certeza que a Praça Vermelha e o Kremlin não tinham nada a ver com isto). Quando tirei as mãos da cara, posso dizer que passei a ter uma outra perspectiva do meu quarto: o tecto. E lá estava o baton preso ao candeeiro, oscilava perigosamente pendurado apenas por uma ponta de fita-cola. Pergunto-me se não terei dado sinais de que estava a despertar para aquilo ter ficado colado daquela maneira. Agora a única coisa que se metia entre mim e o candeeiro era a minha altura, mas nada que uma cadeira não resolvesse (sim, porque aquilo aos saltos não foi lá). Finalmente agarrei o baton e fiquei a pensar que se fosse um episódio do CSI, tinha posto umas luvas e tirado uma impressão de uns milímetros de dedo, mas que mesmo assim dava para encontrar o responsável pelo jogo em menos de cinco minutos.

Olhei para o baton, não percebia nada daquilo, mas duvidava que fosse coisa de qualidade... aposto que foi comprado numa loja em bico! Depois de muitas voltas ao baton, não descobri grande coisa, mas era óbvio que era ali que estava a minha segunda pista... afinal, os batons não se penduram nos candeeiros porque gostam de praticar queda livre. Resolvi secar o cabelo e deixei o baton à minha frente, talvez esperançada nalguma espécie de telepatia. Depois de vestida e perfeitamente acordada (ou seja, já tinha desistido de comunicar mentalmente com o objecto), tentei desenroscar o baton, mas só consegui sujar as mãos. Lá fiquei eu frustrada a olhar para a peça e resolvi usar a única ferramenta que sabe tudo: o google! Lá procurei por entre dezenas de imagens alguma coisa parecida com aquela e fiquei a achar que era tudo muito igual. Decidi então procurar a referência da cor, podia ser que ajudasse nalguma coisa. Passados menos de cinco minutos, achei que sofria de daltonismo e desliguei o computador. Um bocado chateada, atirei o baton para cima da cama e nesse preciso momento lembrei-me da fita-cola, ainda presa ao candeeiro (tal como eu disse, o meu forte não é a arrumação). Será que a pista estava na fita-cola?! Lá fui outra vez cheia de esperança, bati na cómoda porque saí a correr do quarto, mas nem senti nada tal era a excitação quando cheguei à secretária.

Enrolado na parte de dentro do rolo da fita-cola estava um papelito colado também com fita-cola. Tirei-o com cuidado para não rasgar nada e li em voz alta:

Muito bem! Espero que o candeeiro ainda esteja colado ao tecto (estupor, pensei eu) E agora suponho que estás por tua conta!

Achei que esta pista era finalmente fácil...

sexta-feira, julho 27, 2007

Primeira pista: entrar no jogo

Senti a brisa que abanava insistentemente as folhas da árvore por cima de mim. Olhei para os meus pés por nada de especial, simplesmente porque estavam no meu horizonte já que estava sentada na relva a ganhar fôlego. Senti-me a transbordar de alegria, alegria por nada em particular, apenas felicidade pura por tudo. Lembrei-me daquela manhã, agora parecia que tinha acontecido tudo num passado distante...

Acordei sem saber porquê e com sono, abri um olho, desejei que não fosse demasiado cedo para não desperdiçar tempo útil de sono (afinal era fim-de-semana), liguei o telemóvel para ver as horas. Era mais cedo do que eu pensava, mas desconfio que nem voltei a pensar nisso assim que uma mensagem anónima chegou: “Bom dia! Que tal um jogo para acordar? Sete pistas... A primeira pista está em ti!”. A mensagem tinha sido enviada há menos de cinco minutos. O meu cérebro ainda estava ensonado, mas o meu instinto estava completamente desperto e pedia mais de mim do que eu podia dar. Reli a mensagem para ver se não havia nada mais explícito que me tivesse esquecido de ler. Em mim? Mas o que é que está em mim, além do óbvio? Olhei para os braços, mãos, pernas e tal e não vi nada. Espicaçada pela curiosidade, pus-me a esvaziar os bolsos do casaco e das calças de ganga que usei no dia anterior. Nada. Virei a carteira do avesso (e uma carteira de mulher tem muito que se lhe diga) e nada. Nada de papelinhos, frases perdidas, autocolantes, nada de nada. Resolvi tomar um banho para acordar e começar a pensar como deve ser. Ia ser frustrante se não percebesse a primeira pista, supostamente era a mais fácil. Lá fui até à casa-de-banho e quando me cheguei perto do espelho, vi que tinha uma seta horizontal, desenhada a baton, perto do meu pescoço. A seta parecia apontar para o ombro. Depois da estranheza inicial, virei-me de costas e vi finalmente a primeira pista! Corri até à máquina fotográfica (porque não conseguia ler como deve ser no espelho) e depois de algumas posições mais ou menos acrobáticas, consegui tirar uma fotografia ao que tinha escrito nas costas:

Espero que não fiques chateada pelo abuso, mas não podia ser nem muito fácil nem muito difícil, para não desmoralizares já! ;)

Quem quer que me tivesse escrito aquilo, era pessoa de confiança. Tinha estado no meu quarto, alguém a tinha deixado entrar e o meu subconsciente não me alertou enquanto dormia. E, apesar da mensagem trocista, eu estava determinada a participar e acabar o jogo! Só havia um pequeno (minúsculo) entrave: eu não percebia nada da primeira pista. Resolvi tomar o meu banho para refrescar as ideias e tirar o baton do corpo. Confesso que foi um bocado complicado porque não conseguia ver se estava a limpar no sítio certo ou não, já para não falar que já de si esfregar as costas sem ajuda dá algum trabalho. Desconfio que ficou quase bem lavado... a cor da primeira água fazia-me uma certa impressão, parecia que tinha pintado o cabelo de vermelho vivo ou alguma coisa do género. Quando me sequei, ainda olhei para a toalha para ver se não existiam resquícios de vermelho. E foi aí que os meus neurónios resolveram despertar do torpor provocado pelos lençóis e o banho quente. Não sabia se estava certa, mas valia a pena tentar!

quarta-feira, julho 18, 2007

Encosta-te a mim

As meias são sempre a última coisa... vá-se entender porquê. Esqueço-me delas frequentemente, acho que é por ter a mania de andar descalça. Pouco depois, abri a água... nem quente, nem fria. O resto da habitação devia estar mais fresca porque senti a formação de uma nuvem de vapor. Fechei os olhos e inclinei-me na direcção do jacto de água, mexi o pescoço devagar para deixar que a água caísse no ombro também. E foi quando te senti, embora já soubesse que estavas ali.

As gotículas de água no meu ombro derreteram-se nos teus lábios. Estremeci e senti-os a percorrem-me o pescoço enquanto inclinava a cabeça para a esquerda. Senti a ponta dos teus dedos a escorrer do meu ombro para a minha cintura num abraço vagaroso. Não mexi um milímetro do meu corpo, mas a minha mente pregava-me partidas porque ouvia o batimento acelerado e descompassado do meu coração sobreposto ao da água a cair. O teu abraço lento parou quando a tua mão me acariciou o ventre. Passados uns segundos onde ambos sustemos a respiração e só se ouvia a água a moldar-nos o corpo, puxaste-me contra ti com força, sem magoar... com segurança. Encostaste-me a ti.

Apoiei o braço direito na parede à minha frente, enquanto sentia o teu corpo colado, a moldar-se ao meu. A tua cabeça ligeiramente flectida para a frente permitia-me sentir o calor da tua respiração no meu ouvido e arrepiar-me a cada expiração. Se ainda não me tinha entregue, aquele foi o momento. Segurei a tua mão na minha barriga para não te afastares. Sem olhares e sem palavras, mergulhámos um no outro.

quinta-feira, junho 14, 2007

Definitely Maybe

Tinhas saudades? - Pergunta ele.
Tinha... - Diz ela sem grande convicção mas com um sorriso malandro.
Muitas? - Insiste ele.
Muitas, muitas! - Diz ela antes de o abraçar, agora com convicção.

Os dois olham-se durante um segundo quando acabam de falar, olhos que irradiam a mesma luz apenas para ser lida nos olhos do outro. Olham-se usando a mesma língua de luz. Ela ri-se com vontade e aproxima a boca dele, os beijos sucedem-se primeiro lentamente e depois rapidamente naquela urgência de algo mais, naquela tentativa de beijar ao de leve como se de um "teaser" se tratasse antes de explodir numa vontade imensa, daquela maneira que se beija quando se quer muito. Dir-se-ia que é um beijo de paixão inicial, mas não.. já lá vai uma década. Por alguma razão que nenhum dos dois sabe, o destino insiste em juntá-los e eles baixam as defesas enquanto o sentimento os vai tomando devagarinho, beijo após beijo, ano após ano. Apaixonam-se todas as vezes, mesmo quando pensam que o tempo já lá vai. Também é verdade que nenhum dos dois oferece grande resistência, mas já não têm tempo para isso, os minutos que têm um com o outro são tudo o que querem gastar.

Ela não faz ideia do porquê de ser ele. Se lhe perguntassem com quem sempre sonhou, provavelmente ainda hoje fazia uma descrição que não assentava nele. Mas quando está com ele, sabe que é ali que está grande parte da vida dela. Talvez seja o sorriso que ambos partilham, talvez as palavras e piadas certeiras que só calam quando um beijo urge. Talvez o brilho no olhar dele que reflecte felicidade sincera ou talvez seja a visão dela enevoada. Até os sapatos que ele usa e que ela não gosta nada são coisas que a confortam e a fazem acreditar que sim. Talvez seja o tom de mimado que ele faz quando ela o contraria.

Ele está na mesma, ela não é definitivamente quem ele definiria como ideal. Nem sabe apontar porque é que se sente irremediavelmente atraído por ela, porque é que o tempo passa e ela está lá sempre com aquela maneira de ser que ele secretamente adora, apesar de estar sempre a dizer-lhe "não sejas assim!". Já conheceu tantas mulheres e ela continua a conseguir que ele se esforce por ela. Talvez seja o facto dela não se render facilmente? Porque ela lhe dá luta? Talvez seja porque ela consegue deixá-lo sem palavras e lhe adivinha o pensamento. Porque ele vê a lua reflectida no rio e só se lembra dela? Porque lhe dá quase tanto prazer falar com ela como tocá-la ou beijá-la. Talvez sejam os beijos curtos que ela lhe dá no pescoço? Ou talvez o facto de não a conseguir tomar como garantida, apesar de confiar nela. Não se domam tempestades...

terça-feira, junho 05, 2007

A fragilidade do amor

É verdade que tenho uma certa queda para estranhos, a curiosidade do que não sei e do que posso descobrir é demasiado tentadora para resistir. Foi assim que nos envolvemos, já foste um estranho para mim. Tu dás-me tudo o que eu quero, mas não deixo de sentir que falta qualquer coisa. Nem sei o que me falta, se soubesse não procurava, ia buscá-la agora mesmo. E no dia em que perderes toda a confiança em mim, és tu quem se vai magoar mais. Eu nunca vou cicatrizar.

Sei que te meto numa espiral que vai acabar mal e que por alguma razão não vou até ao fundo, acompanho-te até metade e fico a observar-te a cair. Não sei porque é que me comporto assim, nem sei se existe realmente alguma razão para isso, onde está a lógica no desejo?

És provavelmente a pessoa que mais amei em toda a minha vida e não sei porque é que isso não basta. Temos tanta coisa que nos liga, é como se as nossas almas fossem teias muito densas completamente entrelaçadas e coladas uma na outra. Sei que nunca me vou libertar, mas também não é isso que quero. Só quero uma ponta solta, onde o meu corpo reaja sem regras, sem lições de moral, sem nada que me faça pensar e modificar a reacção ao prazer que sinto lá fora.

Acho impossível que fiques comigo. Por outro lado, sinto que a minha vida vai fazer sempre parte da tua. Mas por agora, o amor não basta.

terça-feira, maio 01, 2007

Quarto Crescente

- Hum? Estás a falar tão baixinho que não te percebo.
- E tu falas alto.
- Isso eu também sabia, mas com a televisão ligada fica difícil de te perceber... e de abrir os olhos.
- E querias tu a luz acesa!
- Não comento...

E ficámos os dois a rir de nada, enquanto o tempo corria numa maratona. Parece que foi há mais tempo, a memória prega-me algumas partidas e completa irrealmente o cenário. Fico sempre aquém daquilo que quero. Se num momento não quero fazer nada de que me arrependa, noutro acho que devia ter aproveitado mais, e se era a minha última oportunidade? Já nem sei a quantidade de vezes que mas ofereceram de bandeja sem que eu as mereça. Não sei bem como qualificar o que sinto por ti. Sei que mais facilmente daria lugar a outra pessoa do que ficava contigo se soubesse de antemão que te ia magoar e que me ias usar como desculpa para chorar. Ver-te sofrer por minha causa é como magoar-me infinitas vezes...

Apesar de afastar repetidamente a minha cara da tua e adivinhar-te o ar de confusão, bem no fundo queria acreditar que me vais dizer que desta vez não me deixas ir embora. Mas acabas sempre por deixar, não sei se na esperança que eu volte ou não. E eu parto sempre que abres a mão, sem saber bem porquê. Já longe, baralhas-me os sonos e fazes-me sonhar acordada quando toco nalguma peça de roupa que ainda tem reminiscências tuas. O silêncio entre nós volta a cair... até à próxima lua, se ela existir.

quinta-feira, abril 26, 2007

The secret's safe

Ninguém sabe o que nós sabemos, ninguém consegue adivinhar o porquê. Abstraímo-nos do mundo, apagamos os sons, afugentamos as luzes e ficamos sós. E trazemos esse segredo guardado há mais tempo do que podia imaginar, com mais intenção do que me lembro de desejar. Porque é que nos encontramos cá dentro, porque é que passámos por tanta coisa, porque é que deixámos que o outro entrasse num mundo que não partilhamos com mais ninguém. Onde falamos com um sorriso, de olhos fechados e com alguns toques cheios de significado. Porque não dizemos em voz alta o que realmente sentimos. Onde um olhar diz tanta coisa e onde lemos as interpretações e as dúvidas sem falar. Onde o olhar não se troca de olhos abertos. Até porque alguns sentidos estão tão apagados que nem que soltassem foguetes lá fora conseguíamos ouvir ou sentir. Onde cada toque é novo, apesar de saber todas as curvas que percorre do hábito que achava perdido.

Como é que construímos tanta coisa à margem de nós próprias? É como se eu vivesse em dois mundos, o meu e de toda a gente e o outro onde a maior parte das vezes acho que estou sozinha. Também te achaste sozinha? Onde me faz falta não ouvir a minha voz e deixar chover todas as ideias que tenho presas cá dentro, não ter nada por breves minutos. Não sei porque achei que estava sozinha por lá, que o meu ninho era só meu. Não me lembro de pensar nisto até teres voltado, até não conseguir controlar o meu ritmo mesmo quando há um grande vazio. Até me teres segurado e abraçado com intenção de continuar a abraçar muito depois dos teus braços terem partido. Como é que preenchemos os vazios, os anos, os enganos, as outras pessoas? Como é que parece que não se passou nada entretanto? Como é que guardámos tanta coisa... Como é que mais ninguém nos vê, temos o mundo adormecido à nossa volta.

quinta-feira, abril 05, 2007

Bom dia!

Enquanto acabo o sumo de laranja, olho divertida à minha volta. As cuscas chegam cada vez mais cedo... suponho que nunca há tempo suficiente para dizer mal de toda a gente. Às vezes gostava de saber o que elas dizem de mim, o que conferenciam quando eu entro. Há uma mulher particularmente atraente que vem cá todos os dias beber o café antes de ir trabalhar, é o alvo preferido delas. Não sei se o que dizem dela é verdade ou mentira, mas duvido que seja verdade... é a inveja a falar mais alto. Aposto que queriam ser como ela quando eram mais novas: sofisticadas, independentes e lindíssimas.

No entanto, não é este grupo que me rouba a atenção, mas sim um rapaz ao canto que finge que estuda (como se um estudante de secundário pudesse estudar às oito da manhã!). Acho piada ao facto dele olhar mais vezes para a porta do que para o caderno que tem aberto. Até que ela chega finalmente, sempre apressada, sempre atrasada. O dono conhece-a desde pequenina e dá sempre os bons dias à menina Isabel que agradece e sorri, agarra no bolo e sai a correr. Então o rapaz relaxa e pega finalmente no caderno. É incrível pensar que ele está ali o tempo todo só para a ver durante uns trinta segundos. Divirto-me ainda mais a pensar no que ele imagina quando ela não aparece... será que acha que ela tem uma doença muito grave? Que corre perigo de vida e que espera que ele a vá salvar? Aposto que cada vez que ela não vai buscar o bolo, ele jura que se declara se a voltar a ver. Já o vi a levantar do lugar, enquanto apertava as mãos com muita força para ganhar coragem, mas quando se levantou mesmo já ela tinha ido embora. Acho-lhe piada, pronto. Mas agora que a Isabel se foi, ele também está a arrumar as coisas.

Do outro lado está um grupo de estrangeiros. Há sempre estrangeiros no Verão, normalmente alemães, franceses ou espanhóis. Os últimos ouvem-se com uma certa clareza. Também acho piada ao pessoal que tem o sotaque cá do sítio, é provinciano mas tem a sua piada quando não dizem disparates. Oiço a conversa mas nem estou a tomar atenção ao conteúdo, estou simplesmente a registar as palavras onde a pronúncia é mais cerrada.

Até que tu chegas, ligeiramente atrasado, cabelo com risco ao lado a cair para os óculos. Sorris e iluminas tudo... nem esses teus olhos azuis pequeninos reflectem tanta luz. Sinto que até as cuscas te acham simpático e nem te conhecem. Levanto-me à pressa e nem acabo o sumo. Saio contigo, o meu dia começa agora.

terça-feira, março 27, 2007

O infinito cá dentro

Sinto que não pertenço aqui, assim como sinto que tudo isto - o ar, a maresia, o meu tom de pele preparado para o sol, os olhos escuros, a língua do meu subconsciente - é quem eu sou. A vida não pára, o verde voltou a assolar a terra, as flores aparecem em todos os cantos e a bicharada está de volta. Não sei se gosto desta rotina, desta previsibilidade ou se realmente é tudo novo e eu não me apercebo. Sei que é tempo de avançar, nunca sei muito bem para onde estou a caminhar mas gosto do caminho que estou a percorrer, não me apetece curvar nem tomar atalhos. Avanço devagar, mas com vontade de dar um passo e depois outro.

Esqueço-me do sabor dos morangos com chocolate quente enquanto me delicio com cerejas e penso que as ameixas pretas estão verdes enquanto vermelhas.

Continuo a acordar ao som de rolas, não está frio, nada de mantos brancos, apenas sol, um calor ameno e uma vontade enorme de sair. É a minha estação preferida e volta tudo a ser igual, se calhar até é tudo diferente. Apetece-me dançar à chuva, apetece-me estar ao sol, não me apetece falar, quero sentir-me inundada com os cheiros e as sensações. Recordar o frio ao sol, fechar os olhos e mesmo assim ver o que tenho à minha frente. A dança das pessoas, dar a mão a alguém, descer uma rua muito movimentada só para me sentir ignorada e muito pequenina, mas bem no coração da acção. Ouvir música que me faz sentir nos anos 20, visitar palácios e tremer ao pensar no gelo que atravessa as paredes no Inverno... Divirto-me facilmente, aborreço-me ainda mais e sinto uma necessidade enorme de avançar, o que quer que isso seja. Isto nunca vai mudar em mim.

Choro, rio, vejo o tempo passar, vejo o vento a dançar com folhas e a delinear as curvas que podiam ser os caminhos que percorri ou talvez os milhares que nunca percorri. Olho para trás e apetece-me rir, fazia tudo de novo. É tudo o que tenho, é quem eu sou. Encolho os ombros. Esta noite queria que me nascessem asas e voasse para longe... queria brincar com as estrelas, rodopiar como as luas, explodir em milhões de pedacinhos, tornar-me parte de alguma estrela numa constelação muito longe. Mas também queria acordar exactamente aqui.

domingo, dezembro 10, 2006

Encontro por aí...

Estava extasiada com as iluminações, os enfeites.. até com o frio! Claro que estava feliz da vida, conforme os dias entram em contagem decrescente até à noite de 24 de Dezembro (Natal é a 24, digam o que disserem, o meu cérebro não processa outra data), a minha idade vai reduzindo e torno-me numa criancinha a vibrar com as músicas de Natal. Com as prendas não vibro tanto porque já não têm o significado que tinham. Sou incapaz de percorrer as ruas iluminadas sem "dançar" um bocadito, cantarolar qualquer coisa que tenha guizos a definir o ritmo e não é o cachecol nem o vapor que sai da minha boca que me faz arrepiar de frio. Estou feliz, verdadeiramente feliz.

Quando te vi no meio do passeio a sorrir, acordei de repente. Ia tão entretida de pescoço ao alto a ver tudo o que o meu horizonte não alcança que nem me lembrei que ia ter contigo! Incrível.. cá estou eu. Tão longe de casa, tão longe de tudo e bem no meio da rua, das iluminações, das pessoas carregadas de sacos, das crianças, da camada extra de roupa e do barulho do gelo a desfazer-se por baixo das botas. Cá estás tu, como prometido, como prenda de Natal antecipada. Impossível não chegar ao pé de ti, abraçar-te e dar-te um grande beijo de boas-vindas. Afinal o Natal branco começou mesmo mais cedo. Passeámos um bocadinho de mão dada pelas ruas da cidade, mas eu já não fazia nada a não ser olhar-te nos olhos e tomar muita atenção ao que dizias. Acima de tudo, sorrir... rir-me contigo, rir das tuas piadas, rir de tudo e nada, rir só porque estou contigo. Descobrimos a cidade, redescobrimos o frio que faz quando tiramos o cachecol que tapa a boca e o nariz...

Chegámos ao hotel e desapertámos os cachecóis, a diferença de temperatura era grande. Já no corredor do andar do nosso quarto, encostaste-me devagarinho à parede e apontaste para o sensor de movimento. Esperámos que as luzes se apagassem. Agora não sinto frio, quando nos beijamos, a sensação é tão quente que sinto o gelo a derreter lá fora...

domingo, novembro 26, 2006

Era uma vez na Arábia, parte II

(...e Bin Laden entrou na caverna.)

Ao ver Al-Face morto em cima de um monte de moedas entrou em pânico:
- O Francisco Louçã descobriu-nos! O Bush não nos pode continuar a financiar-nos para aqui, avisa o Gates que está tudo cancelado! Temos que nos mudar rapidamente! Este é um aviso extremamente claro!!
- Mas ó patrão, será que não foi só um campónio qualquer que nos descobriu?
- Achas mesmo!? E não levava nada?! Ficava morto ali?! Só por essa ideia estúpida, vai ficar sem cabeça!
E zás... cortou a cabeça a Al-Garve, o primeiro amor de Al-Guidar. Os homens de Bin Laden carregaram os camelos e burros para fugir o mais rapidamente possível, mas estavam com problemas em carregar um pote porque o burro não aguentava com o peso e teimava em cair para o lado. Alguns homens resolveram averiguar o problema do burro e descobriram Al-Jazeera dentro do pote. Assim que foi descoberto, só um pensamento atravessou a mente de Al-Jazeera: "Quem me dera estar contente num lugar longe e com o amor de Al-Guidar!". Meio desejo concedido mais tarde, encontramos Al-Jazeera um pouco atordoado nas Bahamas, completamente hilariante, ria-se imenso mas não sabia bem de quê.

De volta ao local do crime, Bin Laden tentava perceber o que se tinha passado. Não queria fazer perguntas porque se recusava a admitir que um homem tinha desaparecido, mas também não queria dar parte fraca face ao medo espelhado na cara dos restantes homens. Um pouco temeroso de magia negra, deixou ficar lá o pote, o burro e decapitou os homens que eram testemunhas (Al-Entejo e Al-Mada, 2º e 3º amores da vida de Al-Guidar). Lá continuou o seu caminho com burros e camelos com um único objectivo: Andorra e o seu paraíso fiscal.

Uns quarteirões ao lado, Al-Guidar tinha finalmente decidido o que queria pedir como desejo. Levantou-se, pegou nas mãos de Brad-Pitt e disse bem alto: "quero que deixes de ser génio e que fiques comigo para sempre!". A face de Brad-Pitt iluminou-se de felicidade e fechou os olhos à espera da magia de que ia ser alvo.
Passados uns dez minutos de espera e um bocado aborrecidos de olharem um para o outro, acharam que aquele desejo não devia ser concretizável e tentaram outros tantos, entre os quais uma árvore que dava ouro, um hamburguer da MacDonald's que não cheirava mal, um Vítor Neves com perguntas racionais, um país sem corrupção... quando pediu para tornar encarnado um tomate verde chegou à conclusão que Brad-Pitt não tinha poder nenhum!

Entretanto nas Bahamas, Al-Jazeera tinha chocado com o 10º amor da sua vida em biquini, as mulheres na praia sucediam-se a um ritmo alarmante! Ao longe viu um homem a caminhar na sua direcção e, sem saber por quê, sentiu um arrepio na espinha. Apesar de se estar a aproximar, ele não sabia se era homem ou mulher (vinha com uma tanga e sem mamas). O homem chegou-se ao pé dele, cravou-lhe dois beijos na cara e apresentou-se: "José Castelo Branco, muito prazer! Ai, que barba tão giraá! Que classe!!". Al-Jazeera teve a certeza que não era homem nem mulher, só queria fugir. Reparou então numa peça ao lado do homelher: uma massa disforme que parecia sorrir. Pensou que estava sofrer efeitos de insolação, sentiu-se tonto e caiu redondo no chão. Quando acordou, o homelher estava a fazer-lhe respiração boca-a-boca, louco de raiva porque beijar semi-homens era contra as leis de Alá, atirou-se ao mar decidido a morrer por afogamento. Ia já muito longe da costa e quase a desfalecer quando uma tartaruga gigante o apoiou e levou até uma praia, onde finalmente se deixou vencer pelo cansaço.

Entretanto Al-Guidar reparou que lhe tinham assaltado a loja porque nem o marido nem o empregado lá estavam. Completamente desolada por ter ficado sem dinheiro, resolveu ir à procura do marido enquanto Brad-Pitt tentava suicidar-se inalando creme depilatório. Al-Guidar percorreu as casas de todos os conhecidos e desconhecidos perguntando pelo marido e cunhado, mas nada, ninguém sabia nada do seu paradeiro. Desolada, passou três dias em greve de fome, fitando o horizonte enquanto Brad-Pitt curtia a sua depressão. Ao saber da triste história destes dois que tinham tudo para ser felizes, Paulo Coelho voou do Brasil para ensinar o verdadeiro sentido da vida a Al-Guidar e a Brad-Pitt. Ensinou-os a lutar, a ler as estrelas, a serem uns verdadeiros Merlins da vida, reconhecer sempre as coisas boas, não recordar as más, aprender a viver e a lutar porque há sempre outra oportunidade espiritual! Extremamente agradecidos a Paulo Coelho (que lhes cobrou apenas umas percentagens do livro "O Alquimista"), resolveram rumar à terra prometida, algures naquela direcção.

Do outro lado do mundo, Al-Jazeera acordava ao som de uma música contagiante, estava uma mulata ao lado dele que o convidou a dançar. Al-Jazeera mal conseguia controlar o rabo e não parava de dançar, aprendeu salsa em menos de cinco minutos. Os olhos verdes rasgados da mulata prendiam-no e nunca mais se separou dela. Ao fim de um mês, aprendeu a falar espanhol, entendeu que estava em Cuba, e nessa altura era já versado em Hemingway e rum, puros ainda lhe faziam tosse. Aprendeu depressa as leis do mercado negro e refez a sua vida com a mulata a vender chás calmantes com sabor a maçã que disfarçavam a fome. A mulata, de seu nome Enazibel, mostrou-lhe o que era o verdadeiro amor e filhos mestiços. E claro.. muita salsa! Viveu feliz.

Voltando atrás, Al-Guidar e Brad-Pitt não eram felizes, tinham muitas desavenças conjugais e decidiram que era melhor separarem-se.
Nessa altura estavam a fazer uma busca espiritual na Índia, ele conheceu a bela Angelina-Jolie e, sem lhe contar nada do seu passado como génio, abraçou as causas humanitárias e fingiu aceitar os filhos que ele sabia que não eram dele, bastava olhar para a pele das crianças, por Alá!
Al-Guidar entrou em depressão, converteu-se numa mulher da vida e, alguns dias depois, na taberna "estamos-todas-cá" conheceu Bin Laden. Ele apaixonou-se imediatamente por ela e levou-a para Andorra. Aí aprendeu a fazer ski, ser muito bem paga para dormir com magnatas e a ser feliz.

(A programação normal do blog vai ser retomada em seguida)

sexta-feira, novembro 24, 2006

Era uma vez na Arábia, parte I

Era uma vez um senhor chamado Al-Jazeera, era muito trabalhador e correcto mas tinha um irmão rico que era exactamente o oposto dele. Al-Jazeera trabalhava para o irmão que tinha uma esposa lindíssima por quem ele estava irremediavelmente apaixonado. Por sinal, a bela moça tinha sido obrigada a casar e estava apaixonada pelo irmão mais novo, ou seja, o pobre Al-Jazeera.
Um dia, estava ele a passear no deserto e viu uma grande agitação no horizonte, escondeu-se atrás de umas rochas porque temia uma tempestade de areia. Escondido atrás das rochas, viu alguns cavaleiros aproximarem-se... muitos! Ficou pasmado quando viu o líder deles: Bin Laden! Era o ladrão mais procurado no país todo e a sua quadrilha era numerosa. Bin Laden aproximou-se de uma rocha enorme e gritou: "Abre-te Sésamo!". Perante o olhar espantado de Al-Jazeera, a enorme pedra mexeu-se e toda a quadrilha entrou num buraco que ficou a descoberto, a rocha voltou a tapar o buraco quase instantaneamente.

Assim que a quadrilha se foi embora, Al-Jazeera correu até à pedra enorme e gritou: "Abre-te Sésamo!". A pedra mexeu-se e ele entrou... a caverna estava repleta de ouro e vários tesouros! Como era uma pessoa medianamente desinteressada, passeou um pouco mais na caverna a pensar que talvez pudesse levar uma coisa ou outra para montar o seu próprio negócio, até que viu uma lâmpada semelhante à do Aladino. Correu a apanhá-la, esfregou a lâmpada e nada. Nada de génio, nada de desejos, nada. De qualquer maneira, levou a lâmpada no bolso, tirou um ou dois cordões de ouro e voltou a sair da caverna.

Quando Al-Jazeera chegou à loja no dia seguinte, foi a correr ter com a jovem Al-Guidar (a mulher do irmão) para lhe contar o que tinha visto na caverna e entregou-lhe a lâmpada como prova de que estava a falar a verdade. Assim que a moça se viu sozinha, começou a esfregar a lâmpada e saiu mesmo um génio. Não era bem o que ela tinha em mente mas ficou muito agradada, o génio era um rapaz louro muito bem parecido que dava pelo nome de Brad-Pitt. Brad-Pitt explicou-lhe que era novo naqueles números e que não tinha grande jeito para magias.. tecnicamente só tinha direito (e capacidades) a realizar meio desejo. No entanto, Brad-Pitt apaixonou-se por Al-Guidar assim que a viu e ficou a pensar num esquema para a levar dali, apesar de não ser muito bom em magia. Al-Guidar ficou um pouco triste, mas como optimista que era, achou que meio desejo era melhor que nenhum! Não querendo desperdiçar o meio desejo em vão, pediu ao Brad-Pitt para esperar um pouco até tomar uma decisão.

A verdade é que quem tinha direito ao meio desejo era Al-Jazeera pois tinha sido ele o primeiro a esfregar a lâmpada. No entanto, o génio estava no seu momento de depilação peitoral e quando finalmente saiu da lâmpada, deu de caras com Al-Guidar e presumiu que tinha sido ela a esfregar a lâmpada também da primeira vez. Durante isto, o irmão mais velho de Al-Jazeera, Al-Face, tinha estado a escutar atrás da porta porque tinha ideia que a mulher estava a falar com alguém... seria um amante? A pena para adultério era decapitação e Al-Face achava que Al-Guidar merecia a cabeça, não seria a mesma sem aqueles caracóis ruivos a cair-lhe pelos ombros! Sendo assim, ignorou o caso extra-conjugal mas tentou descobrir quem era o amante da mulher, trepou à janela e viu Al-Guidar sentada na cama com um musculado louro ao seu lado. Percebeu rapidamente que não tinha qualquer hipótese contra um homem depilado e resolveu libertar-se da frustração desabafando com o irmão. Al-Jazeera ficou com o coração destroçado e resolveu contar-lhe o segredo da caverna. Como ambos tinham perdido o amor, só lhes restava mesmo a ambição: pegaram nums camelos e foram até à gruta para atestar os animais. Esconderam-se atrás de umas rochas, viram a quadrilha de Bin Laden chegar e partir e depois entraram na gruta. Uma vez lá dentro, Al-Face ficou maravilhado! Até ao momento, tinha a firme convicção que o irmão tinha estado a gozar com ele, mas depois subiu a um monte de moedas de ouro, saltou, nadou, colocou coroas na cabeça... estava tão feliz que o coração dele não aguentou e fez-se em ketchup.

Al-Jazeera entrou em pânico: o irmão morto e o amor da vida dele nos braços de um louro depilado! Pior era impossível! Ouviu uns barulhos do lado de fora e, em desespero, escondeu-se dentro de um pote enorme que lá estava. Ouviram-se as palavras "Abre-te Sésamo" e Bin Laden entrou na caverna.

(continua...)

segunda-feira, novembro 13, 2006

O quinteto maravilha

Pois bem, a minha colega (colega desse escol que é o grupo das "Misses") Miss Perfect, lá resolveu tornar-me numa feliz contemplada (a sério) neste jogo e meteu-me também ao barulho. Esta é já a segunda vez que me vejo nestas andanças por isso tive que me esforçar ainda mais do que da outra vez... o que vale é que eu sou uma gaja cheia de manias!...


1. Apesar de ter a leve impressão que é irritante a longo prazo, eu estou sempre a rir! Sei que daqui a uns cinco anos (no máximo) serei a última cara à face da Terra que vai ser escolhida para fazer publicidade a um produto anti-rugas. Ainda mais idiota (e esta tiveram que me dizer porque eu tristemente não dava por ela) é que não só falo pelos cotovelos, como corro o risco de arrancar um olho a alguém que passe perto de mim enquanto falo porque a minha diarreia verbal é acompanhada de uma fascinante linguagem gestual. Quanto ao mexer muito as mãos, já dei por mim a falar ao telemóvel e a explicar com as mãos, acredito que a pessoa do outro lado tenha percebido muito melhor... Quanto ao sorriso, a minha sorte é que até tenho a cremalheira completa e razoavelmente branca...


2. Ok, carros. Pronto, o problema não são bem os carros são mais propriamente os Audis (tirando o A2, "balha-me Deuz"). Eu reajo à passagem de um Audi como o meu cão reage quando eu lhe mostro um bocado de presunto e faço círculos com ele. Mas há algum carro mais bonito que um A3, um A4, um A6, um A8, etc ou um TT com aquele azul lindo??
Rapazes, não venham cá com histórias porque eu até já tive oportunidade de engatar uma miúda por causa de um Audi... E esta, hein?!


3. Adoro andar descalça!
Pronto é isso... não sou capaz de andar de salto alto, acredito que seja muito elegante, mas eu a cair de uma escadaria não me soa nada a elegância. Só usei umas quatro vezes em toda a minha vida e fui sempre sortuda o suficiente para ficar em mesas com toalha até ao chão, assim fiquei o tempo todo descalça (aliás, saltos altos são das poucas coisas que me fazem estar muito tempo na mesma posição, sentada e quieta). Gosto muito de ténis, mas andar descalça é mesmo uma alegria... Deixem o chão com taco de madeira vir até aos meus pezinhos!! Provavelmente demoro a curar constipações por causa disso, mas andar calçada em casa é um atentado à liberdade. (Não tenho fotografias dos ditos porque foram submetidas a concurso... esperamos o veredicto final!)


4. Por alguma razão dúbia, quando preciso de estar concentrada para resolver qualquer coisa preciso de estar a fazer outra coisa ao mesmo tempo. Quando estou a estudar, normalmente estou a "cantar" qualquer coisa ou a fazer desenhos de coisas que não têm nada a ver. Quando estou ao computador, ponho-me a jogar "Solitário" enquanto revejo as coisas mentalmente para encontrar ou corrigir erros. Já fiz um exame do princípio ao fim ao som de um martelo pneumático e não dei por ele até acabar o exame! Eu sei que é estúpido, mas não me consigo concentrar se estiver tudo em silêncio e isso explica a minha aversão às bibliotecas (excepto à do ciclo onde se pescavam os peixes do aquário com clips).


5. E por último, sou uma verdadeira e incontestável fã de desenhos animados! Ainda por cima vejo tudo o que seja da Disney ou da Pixar, sou muito selectiva... cof cof. Não sei se tem alguma coisa a ver com o facto da minha época festiva favorita ser o Natal, acho que a minha parte de adulta é um bocado deficitária em certas (muitas) áreas... mas pronto, acho que podia ser pior!! E para imagem final, deixo-vos com uma curtíssima metragem que se chama "For the birds" e que quase roubou o filme que se seguiu. Suponho que depois disto, a próxima vez que olharem para mim deve ser deste estilo:


Agora vem a parte que me dá gozo, entalar mais 5 pessoas! E o pessoal que venceu o renhido casting é o que se segue:

O rookie Max
A sempre-no-topo-da-sua-performance The Bitch
O Balhau que se raspou da última vez
A doce Catarina
E a gémea Ana

Come on... make my day! ;)

terça-feira, novembro 07, 2006

Uma fotografia com sabor a morango

O teu pai dizia que eram "calças de circo" e remungava entre dentes sempre que as trazias vestidas. Eu nunca lhes liguei muito, mas aprendi a gostar delas por causa desta fotografia. Sempre tiveste um estilo bastante teu, é impossível olhar para ti e não reconhecer isso. Ainda tens aquele hábito de ter sempre uma caixa de pastilhas de morango no bolso, raramente te apanhei a passear sem estar a mascar isso. Não costumo aceitar as que me ofereces, só quando quero enganar a fome, mas gosto imenso do cheiro a morango que fica a pairar no ar à tua volta.

Não sei se te lembras desta fotografia, provavelmente sim... estamos os quatro de costas para a falésia e com o cabelo no ar! Já foi há algum tempo, mas ainda me recordo muito bem da força do vento. Foi ali que aprendi a gostar das tuas calças, o vento era tanto que as calças torneavam perfeitamente as tuas pernas. Esta fotografia não me deixa mentir ou esquecer esse fim de tarde. O que mais me orgulha é o brilho nos teus olhos e o sorriso enquanto olhavas para mim, estava ainda a começar. Os altos e baixos que se seguiram... não foram muitas as ocasiões, mas os baixos foram mesmo cavados. Os bons momentos são tantos que não me consigo lembrar de todos, mas o dia desta fotografia está bem presente desde que acordei até que adormeceste no carro durante a viagem de volta (dizias tu que nunca adormecias em viagem).

É bom continuar a ver o brilho nos teus olhos, é bom continuarmos a rir sem parar. É bom rir só de te pensar em ti. Já não tens aquelas "calças de circo", mas ainda acordo com o cheiro a morango na almofada que não uso. É um tesouro que guardo dentro de mim e que só tu me dás, é um acordar doce.

sexta-feira, outubro 27, 2006

Outro Outono

Nesse dia cheguei tarde a casa, andava cheia de trabalho. Tinha tanta coisa para fazer que já não bastava escrever na agenda, precisava mesmo de memorizar algumas coisas. Estar constantemente a rever tudo o que tinha que fazer criava-me uma certa dificuldade em desligar ao chegar a casa. A informação toda que voava de um neurónio para outro toldava-me a fome, a sede, a vontade de fazer o jantar e de ouvir música (televisão foi coisa que nunca me atraiu).

Nesse dia lembrei-me de inventar qualquer coisa para relaxar, fui buscar um cobertor grande, puxei o sofá para trás, tirei a mesa da frente e estendi o cobertor no chão. O sofá era de facto mais confortável, mas a coisa compôs-se com uma ou duas almofadas e música muito baixinha. Deitei-me ali, a imaginar como seria se eu de facto tivesse uma lareira. Não sei quanto tempo fiquei assim, provavelmente adormeci. Despertei com o som do telemóvel, aquele bicho que tanto nos consegue fazer sorrir como cerrar os dentes com força. Confesso que demorei um certo tempo a equacionar se valia a pena levantar-me para ver o que se passava, afinal já passava da meia noite e eu estava a sentir-me tão pequenina, tão agasalhada, tão bem.

Ao fim de alguns minutos, acabei por esticar o braço ao máximo e lá consegui pregar com o telemóvel no chão. Na mensagem dizias que tinhas acabado de sair da Universidade, ainda nem tinhas jantado e querias saber se o pessoal se tinha juntado todo aqui (como é normal à sexta-feira). Passaram-me várias coisas pela cabeça como ignorar a mensagem e continuar a desfrutar do meu "ninho", no entanto, acabei por te dizer para onde tinha saído toda a gente e que eu estava sozinha, não valia a pena vires cá. Mas tu vieste na mesma... aparentemente também não querias meter-te em ambientes confusos naquele dia, nada de muitas imagens, gente a falar, fumo, música alta... Não estava à espera que viesses, não estava mesmo. Mas sabes que mais? Foi o melhor que podias ter feito.

Ainda consigo ver-te a entrar na sala com o pacote de castanhas assadas na mão. Ainda consigo sentir o sorriso e a sensação quente que deixaste que alastrasse dentro de mim. Acho que também te rias da minha cara gulosa e dos dedos sujos do carvão das castanhas. Sentaste-te comigo no chão, queixaste-te que te doía o pescoço mas não foste para o sofá. Acabaste por deitar a tua cabeça e os teus caracóis no meu colo, assim ao contrário do que acontece nos filmes.


Folhas escarlates e castanhas assadas: as únicas razões que me fazem abraçar o Outono. Ficámos a noite toda juntos e eu nunca me esqueci... até porque tu nunca gostaste de castanhas assadas.

quarta-feira, outubro 18, 2006

Ode aos críticos de cinema

Se há coisa que eu não compreendo é exactamente para que servem os críticos de cinema, especialmente em sites onde o público também vota. Do meu ponto de vista, um crítico de cinema devia esclarecer os pontos fortes e fracos do filme. Se possível, explicar se vale a pena dar 5 euros por ele e comparar a algum filme já conhecido para dar uma vaga ideia da coisa. A maior parte dos críticos de cinema só serve para correr com o pessoal dos cinemas (seria essa a ideia original?).

Existem os críticos "enciclopédia", sabem tudo do passado dos realizadores: onde nasceram, as influências, as notas da escola, a primeira curta-metragem, quando é que o filme foi exibido pela primeira vez, os prémios que recebeu, excertos de entrevistas, etc. Comparam o filme actual com um qualquer que a criatura fez há 20 anos e dizem que esse é que era bom. Ficamos sem perceber se o filme vale ou não os 5 euros.

Os críticos "pessimistas" acham que qualquer filme é mau, os filmes bons eram na altura da Maria Cachucha ou de um realizador que nunca ninguém ouviu falar. Acham que o pessoal de hoje em dia não faz ideia do que é realizar um filme, divagam sobre outros filmes com o mesmo tema que, segundo eles, são obras-primas e esquecem-se do filme que deviam criticar.

Há aqueles que contam o filme do princípio ao fim: "O filme começa com o José que é desempregado, entretanto conhece Lúcia, o amor da sua vida, e a mãe dele morre em circunstâncias misteriosas. Todos suspeitam de Lúcia mas o verdadeiro culpado é o cunhado". Estes resolvem-nos o problema: ficamos logo sem vontade de ver o filme.

Existem também os críticos "surrealistas", são capazes de ver um arco-íris no "Branca de Neve" de João César Monteiro. Por alguma razão (que não o excesso de dioptrias), vêem um filme que não é o que o realizador fez. No plano de uma barraca conseguem encontrar uma crítica à sociedade e o facto de existir um arbusto na cena é uma clara menção à política de Bush. O chato é que podemos ficar muito entusiasmados com o filme e depois achar que não percebemos nada (ou pelo menos não entendemos o que o crítico entendeu).

E temos ainda aqueles que não viram filme, copiam as críticas estrangeiras e ficam muito felizes com isso. Sai sempre qualquer coisa como: "filme muito aclamado no festival porco de prata" o que deve querer dizer que é bom ou "o filme passou despercebido nos Estados Unidos" o que não diz nada porque, já se sabe, a opinião dos americanos não interessa nada.

Ora bem, o que é que acontece na realidade? Ninguém liga nenhuma aos críticos e o pessoal vai aos sites onde o público vota. Se há 200 pessoas a votar menos de 3 estrelas, fujam do filme! Nenhum português dá menos de 3 estrelas a menos que os 5 euros que gastou tenham sido mesmo mal gastos! Acima de 4 estrelas começa a ser um bom filme. E depois, acabo por gostar mais dos filmes comerciais do que daquelas "obras de arte" que os críticos idolatram (e que me fazem dormir).

terça-feira, outubro 10, 2006

Quando é que mudou?

A respiração volta devagarinho ao normal, o batimento cardíaco continua rápido e o meu corpo brilha do suor que ainda não foi absorvido pelo que resta do lençol... Agora já consigo pensar, consigo partilhar o que penso de ti, de nós. Assusta-me pensar até onde que chegámos. Olho para ti, um sorriso cansado mas sincero, olhos meigos que realmente se preocupam comigo.

Como chegámos até aqui? Evito pensar em toda a minha família, evito pensar na tua. O que realmente me preocupa é: quando é que passámos a conhecer-nos demasiado bem? Quando é que passámos a precisar um do outro? Quando é que passou a ser verdadeiro?... A situação assusta-me um pouco, não te consigo ver sem me imaginar a tirar-te a camisa e ao mesmo tempo não compreendo como arrasto a situação sem mexer um dedo para lhe colocar um ponto final ou talvez um inicial, apesar de tudo.

Conta-me o que sentes, conta-me porque me queres, conta-me porque é que pensaste que eu era a mulher da tua vida. Conta-me como vamos ter um futuro doce sem dificuldades, conta-me enquanto estás aqui comigo a sorrir e a olhar-me nos olhos. Conta-me histórias...

sexta-feira, outubro 06, 2006

Fado triste

Como almocei mais cedo do que o normal, em vez de ver as notícias fui "presenteada" com um programa da manhã (menos mal porque era na RTP1). Parece que hoje é dia de festejo, acredite-se ou não, estão a festejar o facto da Amália ter morrido há 7 anos. Eu sou a favor de aproveitarmos todos os momentos para festejarmos, quer alguém tenha morrido ou não.

Ok, eu não percebo nada de fado.. é verdade. Sei o nome da Amália pela mesma razão que sei o do Eusébio (não tem nada a ver com lontras) e já vi mais vezes um remate do Eusébio do que ouvi um fado da Amália. Aquele tipo de música não me puxa nada, não sou capaz de ouvir e deliciar-me. Mas posso opinar na mesma: que raio de caretas são aquelas?! Eu sei que os guitarristas têm a mania de fazer caretas ou meter a língua de fora quando prolongam uma nota aguda, mas o que é aquilo? Eu nem ouvi o que é que a Kátia Guerreiro estava a cantar, a minha atenção estava toda na cara que espelhava um sofrimento terrível, um verdadeiro parto sem epidural a cada sílaba. O queixo estava apontado para o PoSAT e a cara de sofrimento a olhar para o tecto só fazia pensar em que tipo de tortura inquisitória é que o tecto lhe estava a infligir. Anda aí tanto actor que não sabe fingir sofrimento e afinal basta aprender a fazer um playback de uma fadista! A única parte chata é mudar o argumento para ter o criminoso a atacar sempre por cima.

Como não estavam satisfeitos, resolveram levar dois guitarristas e procurar populares que quisessem cantar um fado "amaliano". Numa escolha que me pareceu perfeitamente lógica, foram ao mercado do Bulhão. Curiosamente aquilo não caiu e nenhuma mulher tinha sotaque do norte. Acho que as reportagens sobre o fecho do mercado são fictícias, quando se deu a confusão toda não havia uma entrevistada que falasse sem sotaque.. seriam figurantes?
Aí percebi finalmente o sofrimento da Kátia Guerreiro, tive um momento de escuridão total: aquelas "fadistas" resolveram abrir a goela e nuns minutos que duraram uma eternidade mostraram que é possível saber de cor uma música, ouvi-la mil vezes por dia, adorar a Amália e não acertar numa única nota, bravo! Os meus tímpanos pediam clemência, o meu queixo deixou-se cair de terror e desconfio mesmo que as celulazinhas que interpretam o som para sinais eléctricos estavam a planear um suicídio colectivo. A felicidade é que no meio de tanta tragédia, o microfone deixou de funcionar (partiu-se), entregou a alma ao criador e aposto que nunca pensou que pudesse vibrar tão sofrivelmente sem ter sentimentos.

Sim senhor, aquilo é o que eu chamo de homenagem! Ou talvez de crime público, não sei.

sábado, setembro 30, 2006

Eras tu?

...E tu chegaste tão perto
Que te apertei no meu peito
Já não era uma miragem
Era a sério, eras tu..

Faz tanto tempo, tanto tempo
Faz tanto tempo e eu não esqueci...

O que é que seria chegar aos 50 anos, olhar para trás e pensar "epá, eras tu?!". Assim tipo realização de última hora, a pólvora depois da guerra. Sei que não me ia atirar da janela porque isso dava muito trabalho, rir para não chorar era capaz de ser a melhor hipótese e também ficar quieta até digerir a informação. Vistas bem as coisas, isto até tem lógica... afinal, saber que alguém nos é verdadeiramente importante nota-se melhor ao fim de algum tempo, quando conseguimos ver as coisas com uma certa distância racional e dissipar o nevoeiro emocional. Neste ponto, estas duas almas gémeas devem estar casadas e com filhos, cada um na vidinha que traçou. Será que vamos olhar para a outra pessoa da mesma maneira? Será que não vamos tentar captar-lhe a atenção? Será que não sucumbimos à vontade de a puxar para um canto e soprar-lhe ao ouvido que é "a tal"? (Expressão correcta segundo o meu guru) A única coisa que me parece chata em deixar ficar tudo na mesma, é que na realidade nada fica na mesma, a comparação entre o que se tem e o que se poderia ter é inevitável.

Ao estilo das "Pontes de Madison County", o que fazer quando podemos escolher entre a pessoa que nos acompanhou até ali e a pessoa com quem queremos realmente estar? Quando podemos cortar com a nossa vida, largar tudo e começar algo radicamente diferente que, apesar de estar certo, pode ter um sabor amargo? Será que temos coragem de cortar com tudo, mesmo que seja a vidinha mais monótona à face da Terra que jurámos aos 20 anos que nunca íamos ter? E se tivermos coragem, como é que se começa uma vida feliz sabendo que magoámos as pessoas de quem mais gostávamos? Afinal, o amor manifesta-se de tantas formas.. é tão fácil amar duas pessoas ao mesmo tempo.

Apesar de ter a certeza que sou dona do meu destino e que as curvas aparecem quando eu resolvo mudar de rumo, tenho uma certa fé (esperança?) que a nossa vida nos cruze mais do que uma vez com o rumo certo (ou seja, que podemos fazer asneira e ser felizes na mesma). Acredito que o tempo que perdemos entre esperar "a tal" pessoa e a arriscar com a errada é-nos dado diversas vezes. Temos é que aproveitar as nossas escolhas da melhor forma... mesmo que as troquemos após 50 anos.

segunda-feira, setembro 11, 2006

A (des)Química do Amor

A minha ideia de amor é um bocado estranha, suponho que me encontro numa minoria, mas descobri há pouco tempo que não sou a única a partilhar este ponto de vista. Antes de mais, quero dizer que tenho a perfeita noção que sou uma namorada a dar para o muito mau! A parte chata é que eu não estou a pensar em mudar (dá trabalho e eu tenho falta de tempo).

Talvez seja excesso de racionalidade numa área em que ela não devia participar (foi o que me disseram), mas eu sinto que o amor por alguém é eterno até aparecer outro "melhor". Não estou a dizer que essa pessoa tenha que existir ou que "melhor" seja mais rico, mais bonito ou mais inteligente. Desconfio mesmo que há gente que se farta de estar bem e que troca um companheiro espectacular por alguém que pode nem ter os dentes todos ou ter uma anomalia cerebral qualquer, mas com quem houve um click! Parece que a culpa é da química cerebral.. Isto de ter uns circuitos que resolvem disparar quando bem lhes apetece deixa o amor na corda bamba!

Não vou ao ponto de acreditar que o amor dura 4 meses (como não sei quem escreveu), mas a verdade é que acho que depende mais do meio ambiente do que deveria. Antigamente era muito bonito, as pessoas conheciam 15 vizinhos, escolhiam um para casar e passavam o resto da vida a conviver com as mesmas pessoas. A única maneira do casamento dar raia e de se querer trocar o companheiro de almofada era quando aparecia um vizinho novo! Agora passamos os dias a conhecer gente, todos os anos há caras e personalidades novas nas empresas, festas, escolas, chats, etc. Isto quer dizer que o nosso companheiro vai ter que ser "melhor" do que as milhentas pessoas que conhecemos anualmente. É um pouco como pedir que o nosso cérebro se deixe estar quietinho e não se meta em confusões quando o novo chefe se aproxima...

Soube que 1 em cada 3 casais que vão de férias voltam separados, isto de domar o cérebro não é fácil! Vou acabar este devaneio com o Burt Bacharach:

...So for at least until tomorrow
I'll never fall in love again

quarta-feira, maio 17, 2006

Quase poema...

Apareceste vinda do nada e fizeste um estrondo tão grande cá dentro que me senti acordado de um sono profundo por um trovão imenso. Não sei de onde vieste, nem faço a mínima ideia de quais são os teus planos ou para onde queres ir, não sei como apareceste aqui, mas rogo-te para que fiques comigo esta noite. Enches-me a alma de alegria, só de olhar para ti sou forçado a sorrir por sentir o meu peito tão cheio de felicidade transbordante. Tenho a certeza que o meu coração vai bater tanto esta noite que nunca mais vai tomar o ritmo certo quando tu não estás. Esta noite sinto-me capaz de salvar o mundo quando te abraço com força, quando sinto o calor e o suor do teu corpo colado ao meu. Não há guerra que consiga vencer um beijo teu... tão quente, tão cheio, tão certeiro. Tanta vida... tanto movimento, alimentas o meu espírito de tal modo que eu tenho a certeza que ele andava sedento e praticamente morto antes de te conhecer.
Eu disse-lhe um segredo: não partas nunca mais. E dançou, rodou no chão molhado, num beijo apertado de barco contra o cais...

E uma asa voa a cada beijo teu,
Esta noite sou dono do céu...

sexta-feira, abril 28, 2006

Ao longe

Ela olha para ele de cima a baixo e descobre que tudo o que mudou nele não muda nada, é ele na mesma. A mesma pele agora um pouco mais queimada, a barba mal cortada que arranha ligeiramente, as mãos sujas da terra que lhe cobre a roupa e os olhos tristes. Os olhos é que ela não reconhece, já não são dele.. através deles ela sente a alma a gritar de resignação.

Eu estou quieta a observá-los, a sentir a respiração contida e os olhares de redescoberta, de medo. Ela esboça o primeiro sorriso e ele encarreta uma conversa banal. Quebram o gelo, finalmente. Conforme ele vai andado, ela segue-lhe os passos com o mesmo sorriso feito que tinha há pouco.. nunca se colocam a par, mas falam e, às vezes, até riem. Ela observa o que poderia ser ela ao conhecer no que ele se tornou e a vida que abraçou. O medo desvanece por completo e dá lugar a um novelo de pensamentos entrelaçados. Tanto temor para quê? Tanto nervoso miudinho, tanto esfregar de mãos e respiração cortada sem querer, para quê? O tempo é demasiado poderoso. Ela vê o tempo a passar nos olhos dele, cada grão de areia que cai no fundo da ampulheta e ela sente-se tão feliz! Feliz porque aquele não é o futuro dela. Tudo o que ela passou, as novidades, as mudanças, as noites em claro, as lágrimas teimosas, a ansiedade, a confusão, o medo de não voltar.. E para quê? Ali estava ela, exactamente onde queria estar. Curiosamente, naquele presente ele não tinha qualquer papel senão na cabeça dela, nem um mísero figurante era! Continua atrás dele mas o sorriso que agora leva estampado na cara é verdadeiro, o brilho nos olhos dela contrasta tanto com o baço dos dele, que qualquer pessoa poderia ver a necessidade que ele tem de o sorver nos dela.

"Temos que repetir isto mais vezes"
Ela acena que sim com a cabeça mas tanto lhe faz. O medo desvaneceu, afinal não era nada. A quantidade de coisas com que ela se preocupa antes de acontecerem é assustadora, mas ela está a aprender que só se deve preocupar com o que acontece, a vida prova-lhe isso a cada momento. Eu vejo-a a recuperar o sorriso alegre, a ser senhora de si e da vida que leva, especialmente da felicidade que sente por ter chegado até ali, ou melhor, aqui. Sorrio também e abandono a minha postura petrificada. Ela despede-se dele com um aceno, enquanto ele espera um abraço. Não obstante, pega-lhe na mão para a ajudar a entrar no carro. Ele fica parado, de pé, a dizer adeus enquanto ainda sente o cheiro dela no ar que o envolve. E se era ela o que ele realmente queria? Mesmo depois deste tempo todo? Sabia a dificuldade que tinha sentido em pegar-lhe na mão e tinha reparado na falta de atrapalhação dela. Olhos tão vivos que poderiam ser agora os dele... Bem, não interessa pensar nisso porque o presente dele é a terra que o cobre de cima a baixo. Vejo-o voltar para casa a massajar a mão com que tocou nela, acender a televisão e a mergulhar no sofá. Eu sorrio da liberdade recentemente descoberta.. e de não ter qualquer sensação na minha mão.

terça-feira, abril 04, 2006

Manhã de Natal

Olho para ti de uma maneira que espero que mais ninguém olhe. Não é que tenha sentimentos demasiado egoístas, mas tenho a necessidade de pensar que mais ninguém vê aquilo que eu consigo ver. Quero ser a única a ter este ponto de vista, como uma fotografia premiada ou uma perspectiva especial que mostra toda a beleza escondida de um local. Tenho aquele olhar com que contemplava as prendas que desembrulhava na manhã de Natal, quando finalmente encontrava a que eu desejava mais. Eu não sentia que havia mais uma centena de miúdas com a mesma boneca, simplesmente aquela era a minha boneca e eu era capaz de olhar para ela como mais ninguém era. E acredito que há muita gente que percebe perfeitamente o que eu sinto e que partilha do mesmo, mas não quero saber dessa verdade. Esta visão é minha e tudo o que eu sei ou sinto cá dentro não é para descrever ou confessar a mais ninguém.

Quanto mais olho para ti, mais descubro que há pormenores que me estão sempre a escapar. Sei as expressões e consigo repeti-las só para mim dependendo do tom com que falas, mas sei que nunca vou saber tudo e isso é bom, reconfortante. Continuo curiosa a tentar descobrir tudo o que não sei. Ainda me surpreendo quando estou a olhar com menos atenção e, de repente, aparece a minha imagem que é a tua na verdade. É quase como se estivesse a olhar para outra pessoa que quero conhecer minuciosamente, cada mudança no tom de pele, as rugas no canto dos olhos e dos lábios, o sítio onde apetece mais tocar no teu cabelo, o espaço por detrás da clavícula que me guia até ao teu pescoço. Nada é meu, mas eu sinto que só eu é que sei daqueles pormenores escondidos nestes locais minúsculos. Não vale a pena perguntar o que estou a pensar porque eu não sei responder ao certo. Estou a elaborar uma biblioteca privada sobre ti dentro da minha cabeça, tentar que não me escape nada, não quero esquecer nada... É isto que me faz fundir em ti.

sábado, abril 01, 2006

O post dos porquês

Hoje sinto-me com 3 anos (só hoje, mais coisa menos coisa) e apetece-me perguntar o porquê de tudo. Resolvi então recorrer à minha idade "quase-adulta" e em vez de chatear alguém em particular, vou chatear toda a gente que cair na asneira de ler isto! Democrático, não é? Ora cá vão algumas coisas que me afligem hoje, amanhã logo se vê.

Para começar, vou gastar já o meu melhor cartucho e esperar que alguém me tente matar ou, na melhor das hipóteses, deixar de falar após ler o que se segue. Ora cá vai disto:

Porque é que há gente com dois nomes próprios que não soam bem nem ao menino Jesus?! Há por aí nomes que conseguem superar os da pimbalhada e que não soam bem nem ao fim de muitos anos de convívio (com prática lá se consegue treinar o tímpano para não reagir.. demasiado). A mania de meter dois nomes que não têm nada a ver um com o outro ultrapassa-me. Parece que alguém não conseguiu decidir entre dois nomes e, em vez de ter dois filhos, sacrificou logo o primeiro rebento com medo que o segundo se recusasse a aparecer. Será que custava muito registar as criancinhas com um nome provisório e depois esperar que elas atingissem os 18 anos para decidirem? Meter o nome de Maria a rapazes só funciona se lhes sair um brasão de armas na lotaria; Tito era o nome do cão da vizinha do rés-do-chão da minha avó; nomes quase-portugueses como Priscilla são impronunciáveis; Cristiano Ronaldo nunca vai soar bem e Pascal André também não!!

Porque é que os bébés são adoráveis? Sinceramente, os bébés são vermelhos ou roxos (depende do nível de obstrução do ranho à passagem do oxigénio), feios, babam-se muito, berram ainda mais, vivem com os próprios dejectos colados ao corpo e não fazem absolutamente nada de útil! Podiam sei lá, fazer uns números de circo ou de stand-up para entreter a mãe que anda há dois meses sem dormir e evitar uma depressão pós-parto? Fazer bolhas de saliva não é considerado entretenimento.

Porque é que eu não sou uma portuguesa a sério se não gostar de bacalhau?
Isto vem na constituição portuguesa?! Bacalhau cozido é horrível e quem quer que se tenha lembrado disto para a ceia de Natal só não vai parar ao inferno porque é Natal e há muitas sobremesas para fazer esquecer a fome. Porque é que não sou miúda se não gostar de passar horas intermináveis a comprar roupa? E mais ainda: porque é que o café (que é amargo) é suposto ser bom depois de levar com 1kg de açúcar em cima!?

Porque é que os pastéis de nata dão tanto trabalho a fazer? Raio dos bolos que são tão bons e aquela massa folhada só serve para quem não tem mais nada que fazer.. (E desculpem lá, mas a massa folhada congelada nem se compara!)

Porque é que a TVI é o canal mais visto em Portugal?.. Isto tem a ver com o facto de eu não gostar de bacalhau e de café e não entender o gosto típico do português?

Porque é que as mulheres não podem dar missa?
Sermões todas as mães dão.. Além de machismo, isto tem mais alguma coisa associada? Na Inglaterra é permitido e não me parece que as pessoas tenham deixado de acreditar na sua religião por causa disso. Isto tem tanta lógica como proibir as mulheres de entrar para a escola primária. (Eu sei que há homens a favor desta última, mas para esses: ainda é a vossa mãe que vos compra roupa e a mete numa cadeirinha no dia anterior para vocês a vestirem no dia seguinte, não é?..)

quinta-feira, março 09, 2006

Número de engate

Ok, e pensava eu que engatar pessoas pela Internet era estúpido. Acho que descobri a última moda dos desesperados deste país, a diferença é que agora a vítima têm que ter telemóvel e não uma vagina (coisa extremamente difícil de encontrar, portanto). O que se segue não é pura coincidência, tudo o que vou escrever é rigorosamente verdade.
Na semana passada recebi a seguinte sms de um 91 que me sinto na obrigação de partilhar:

"Ola tudo bem? Marquei o teu n ao acaso e acreditei que podia nascer uma amizade entre nos, o que achas? Vamos desafiar o destino? Chamo-me Antonio."

Estive mesmo para responder "Olá, eu chamo-me Xavier" mas depois desisti. Primeiro porque não tenho nada contra as pessoas chamadas Xavier e depois porque as sms custam dinheiro, parecendo que não, custa ver o saldo a diminuir com este tipo de coisas. Guardei a sms para me poder rir quando me apetecesse e não me lembrei mais disto até hoje. Ora bem, hoje recebi mais duas sms erradas e que, por sinal, eram declarações amorosas (não sei se ainda vinham em atraso da época dos arrulhos) - assim um bocado parecidas com aquelas da TV: marque "amor 3434" e receba uma sms para enviar à sua cara metade visto você ser demasiado estúpido para conseguir escrever uma sozinho e não ter amor ao dinheiro. De qualquer modo, senti pena por saber que havia alguém lesado em duas declarações amorosas (ao par sai mais barato?). Não me queria armar em anti-cupido e respondi gentilmente que as sms não eram para mim, mas que desejava boa sorte com a pessoa certa! E não é que me responderam? Ah pois é! O mundo das mensagens de 160 caracteres não pára de nos surpreender (desta vez de um 93):

"Obrigado.. e peço desculpa pelo engano que já é a 2ª vez. Posso saber o nome de tão simpática pessoa?"

Ai, dor..
Devo dizer que o meu número de telefone é praticamente impossível de decorar, a série não têm lógica nenhuma e a única coisa que pode chamar a atenção é que tem "69" no fim. Será por causa da terminação? Será por isso que só me sai disto? Mas há assim tanta gente a querer engatar o meu número de telemóvel?! Eu sei que estamos quase na Primavera, eu sei que os passarinhos já andam a fazer os ninhos, as árvores estão a ficar esverdeadas e até o Benfica passou aos quartos de final, mas mesmo assim, não havia necessidade.. (Banda Sonora: Desperado dos Eagles).

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

O dia das serpentinas apaixonadas

Pois bem.. o dia dos namorados. No ano passado evitei ao tema, mas este ano resolvi falar dele. Primeiro que tudo (e porque acho isto muito importante) o dia 14 de Fevereiro é o dia europeu da disfunção eréctil. Sobre este último não digo mais nada porque o sentido de oportunidade já é suficiente. Depois também acho interessante festejarmos com muitas rosas e beijos o dia da morte do S. Valentim, torturado.. claro! É bom sabermos que mataram um padre porque ele casava os rapazes que estavam bons para ir para a guerra e o governante da altura não achou piada. Como os casamentos continuavam em grande número, alguém resolveu cortar o mal pela raiz e matar o padre. Coitado! Já nesta altura a união de facto tinha poupado uns tantos problemas jurídicos.

Isto de ter as lojas todas vermelhas, cheias de corações e peluches é um bocado foleiro. A verdade é que as lojas no Carnaval estão muito mais alegres com serpentinas, máscaras de palhaços,ursos, índios.. sei lá, um nível de foleirice um bocadinho mais baixo. As pessoas estão com outra disposição, ninguém se chateia por tentar jantar fora e os restaurantes estarem preparados apenas com mesas a dois com a porra das velinhas. Porque não juntar as duas festividades? Porque não ver as famílias com as crianças mascaradas (ou mascarradas) nos restaurantes assim como um lobisomem a jantar com a menina da GALP pluma? Ou um fantasma a abraçar um crocodilo? É que além de um dia para fugir ao nosso aspecto diário e do aspecto da pessoa que vemos mais vezes (ou talvez não) há outras tantas facilidades a ter em conta: se estiveres apaixonado por uma pessoa do mesmo sexo, ninguém fica a olhar para ti de lado se fores vestido de mulher/homem, podes sair dos restaurantes/bares sem pagar porque também ninguém viu a tua cara e, de qualquer maneira, com a luz das velas podes sempre começar um pequeno fogo de distracção com as serpentinas!

Mas o dia dos namorados também tem coisas giras. Ver grandes filas de homens nas floristas (depois da hora de saída do emprego) e ver homens que se metem na fila e compram flores porque sabem que é um dia especial, mesmo que não saibam exactamente qual. É aqui que a publicidade ajuda e não serve só para testar o daltonismo, é impossível que exista alguém que não perceba que o dia dos namorados está a chegar, mesmo que seja um despistado nato! É sempre bom termos a certeza que não nos vamos esquecer destes dias, não vá alguém levar os esquecimentos a peito! Também é verdade que os namorados fazem questão de mostrar que gostam um do outro quando lhes apetece, não precisam de dia pré-definido. Este dia é então uma boa desculpa (como outra qualquer) para uma escapadela dos que estão juntos há uma eternidade, até porque há borlas nos telemóveis e descontos em pousadas que devem ser aproveitados!

Estão a ver, nem tudo é mau na época da invasão da coronária vermelha!
Mas a melhor parte deste dia, que é mesmo boa, é que aparecem morangos em todos os hipermercados a um preço fabuloso! Mesmo em caixinhas de plástico reles em forma de coração, temos morangos doces em Fevereiro e eles fazem-me pensar que há sempre um bocadinho da Primavera todo o ano em todo o lado.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Tudo bem?

O que é que queremos realmente dizer quando perguntamos "tudo bem?", será que estamos mesmo interessados na resposta? Acho que, em 80% dos casos, o pessoal se está a marimbar. O início de conversa mais batido é o belo do "olá, tudo bem?" e a reacção posterior é quase sempre a mesma quer a pessoa nos diga que se tentou mandar duas vezes de uma ponte abaixo quer diga que descobriu um chá espectacular para os nervos. Só respondemos à parte do "e contigo?" de onde sai o típico "tudo (bem)!". Perguntar se está tudo bem é, basicamente, uma questão de boa educação, o estarmos interessados na resposta já é pedir muito..

Perguntar a alguém se está tudo bem é um bocado arriscado se for ao vivo. Pode ser que a coisa corra bem, que a outra pessoa se fique por um "tudo bem e contigo?" e cada um siga o seu caminho. O problema é se a coisa corre mal e a outra pessoa está a precisar de desabafar com alguém (e está tão desperada que nem se importa se for connosco). "Epá, nem imaginas o que me aconteceu! No outro dia fui ter com a minha prima - aquela que mora para os lados de Algés - e não é que o carro.." - é a altura em que largamos algumas pistas subtis: olhar insistentemente para o relógio; ".. e depois o homem disse que só se eu fosse à oficina do Zé, aquele que já foi vizinho do meu avô,.." - evitar o contacto visual e procurar alguém conhecido nas redondezas; ".. eu já estava a ver a minha vida a andar para trás, sabes que eu não disse à Ana que lá ia.." - cruzar os braços e ser incapaz de acompanhar a conversa sem ser com "humm", "ah", "pois"; "..e no meio disto tudo, nem adivinhas quem é que eu encontrei! Ah pois foi, a Felisberta! Ao fim deste tempo todo, a vida tem cada uma.." - nunca se deve perguntar "a sério?" ou "ah sim?" porque isso dá para, pelo menos, mais dez minutos de monólogo. Se a grafonola se lembrar que tem dois ouvidos e que eles não estão a processar informação, então é capaz de perceber que se está a alongar um bocado e tenta que a coisa se torne num diálogo não monossilábico.

A pior parte é que quando devíamos deixar a boa educação em casa é que a esbanjamos.. velhotes, essa calamidade nacional! Somos todos sorrisos e damos um "olá!" rasgado, elogiamos a boa forma e perguntamos ao mesmo tempo que nos arrependemos: "tudo bem?". É a catástrofe, desastre total! Vamos passar os próximos dez minutos (optimismo) sem abrir a boca, onde o nosso interlocutor nem está preocupado se respondemos por monossílabos ou se não respondemos sequer, o que interessa é despejar o rol das enfermidades que ele/ela tem. É incrível como todos os velhos têm todas as doenças possíveis e imaginárias (deles e dos conhecidos deles), querem ser o supra sumo das doenças (como nós competimos por telemóveis, carros e respostas às perguntas do Trivial) e lá estamos a aturar tudo com o sorriso mais plástico que conseguimos porque ele nunca devia ter aparecido. Ficamos a saber das manchas que apareceram no dedo grande do pé, assim como do provável problema hepático (porque o Joaquim que mora na esquina também tem esse problema), da queda de cabelo, do cansaço, desconfiam que têm cancro, problemas respiratórios, cardíacos e que o médico é um incompetente porque não encontra nenhuma doença que não seja a velhice! Nós despertamos e despedimo-nos quando nos dizem a única coisa que se aproveita: para aproveitarmos a vida enquanto somos novos!..

Para poupar uns anos de juventude.. vou evitar perguntar se está tudo bem.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Porque votaste sim

Sinto-me demasiado aprisionada dentro de mim própria. O meu corpo rege-se por outras ordens que não as minhas. Estremece ao mais leve sussurro, sente-se irremediavelmente atraído, não pára de ferver sentimentos embrulhados que não consigo conter. Não consigo mudar de canal dentro da minha cabeça, não consigo parar de respirar o ar guardado dentro de mim, não consigo fechar os olhos e imaginar outro lugar. Não consigo sequer tentar, parece que não sou eu. Não consigo imaginar mais nada, não quero mais nada, não consigo parar. Acho que me deixei cair fundo demais dentro de mim.. Foi demasiado depressa e nem me deu tempo para abrandar. Às vezes chateio-me comigo, não consigo fazer nada para inverter a situação. Nem sequer me apetece. Tomaste conta de mim.

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Considerações da passagem de ano a três

Como mudou o ano, é altura para reflectir.

Sou só eu ou o dia 1 não serve para fazer nada de útil? Se não fosse feriado, era uma greve geral a nível nacional (e não só do sector público). O dia 1 espelha todas as coisas que gostava de fazer no dia-a-dia do ano novo: nada. Ficar na cama até a noite chegar porque me dói o corpo todo, ficar a dormir no sofá com o comando na mão, ignorar o barulho do telemóvel com as mensagens que não caíram na véspera. Esperar que ele fique sem bateria porque não me vou levantar para o desligar. Fazer desaparecer o pequeno-almoço, o almoço e todas as refeições que sejam à luz do dia. Petiscar os salgados da véspera, fechar os olhos e fingir que não vai existir nenhum dia seguinte.

Desejos para o ano novo:
- Que hajam mais dias assim.
- Que não chova nas festas ao ar livre.
- Que as pessoas não abram champanhe sem ver se há pessoas com óculos atrás, já agora, que segurem na rolha.
- Que o pessoal não deixe de vir ao blog por causa deste post.
- Que hajam mais dias assim.

Coisas que nos passam pela cabeça nestas alturas:
- Será que aquelas mulheres do circo que fazem de alvo aos que atiram facas têm seguro de cirugia plástica?
- Será que o homem bala não tem problemas a conseguir empréstimos no banco? Deixam-no fazer seguros de vida?!

domingo, dezembro 04, 2005

Mães com SPA

SPA não se entende como sanus per aquam, mas sim como "síndroma pré-avó". No outro dia, estava a fazer sala num consultório e uma miúda estava a fazer queixa à avó porque a mãe dela lhe tinha dito que só lhe dava de comer se ela lhe desse netos! Senti-me solidária.. não sou só eu a sentir que a minha mãe me criou e aturou estes anos todos porque queria um neto (ou mais!). Às vezes fico com a ideia que ela não queria realmente ter filhos, só netos. Todos os meses lá vem a história dos netos.. Que eu não preciso de me preocupar com eles (até porque, segundo ela, eu dava uma péssima mãe), que ela faz tudo e até já tem o trajecto até ao parque infantil delineado! Sim.. "só" tenho que passar pelo trabalho de ter os netos dela. Sim, "só"! É que não custa nada andar nove meses tipo bola de berlim sem conseguir andar muito tempo de pé ou mesmo conduzir, cãimbras, pés inchados, corpo deformado, peito inchado.. e aquelas maravilhosas dores de parto?! Estar umas cinco horas a sofrer para caraças por causa de dez minutos de prazer? Como é que uma cabeça que parece uma bola de futebol passa num buraco mais pequeno que um limão anão sem causar estragos idênticos ao que o cometa fez aos dinossauros? (Rebentou tudo à sua passagem..)

Como é que é possível que em milhões de anos de evolução, o parto continue a aterrorizar qualquer mente feminina? E não me venham dizer que o segundo é mais fácil, já experimentaram?!

Pois bem, eu "só" tenho que me submeter a estas coisas e a minha mãe trata da peste. Está claro que algures "só" vou ter que acordar para dar de mamar àquela grafonola, com o botão de volume estragado no máximo, de três em três horas (viva o sono descansado) senão o peito deve entrar em convulsões e explodir se o terror em fraldas ficar sem sede.
O mais giro disto tudo é que a minha mãe acha maravilhosa a ideia de netos, mas a existência de um pai para eles já é outra história! Se eu for passar um fim-de-semana algures com o meu namorado é um filme de terror e um inquérito fenomenal. Suponho que a peste deva nascer de geração espontânea. Ou talvez em vez de um pai lhe possa arranjar uma mãe e recorrer à inseminação artificial? Será que a minha mãe tem alguma coisa contra isso? Assim não tem que conhecer/aguentar com o pai. Ou talvez ser mãe solteira "à la" Ágata?!

Mãe, lamento mas não quero ser mãe. Desculpa lá qualquer coisinha!

sábado, novembro 26, 2005

Voar daqui

Às vezes, as coisas que me rodeiam cansam-me. Tanta gente, tanto barulho, tanta coisa para fazer! É realmente incrível como ainda conseguimos acordar e deitar bem dispostos ou só mesmo acordar com vontade de viver o dia seguinte (nem que seja em contagem decrescente para sexta feira). Parece que fazemos milagres com as vinte e quatro horas que temos porque conseguimos fazer (quase) tudo a que nos propomos e ainda "sobra" tempo para dormir. Às vezes até sobra tempo para ficar na cama, de manhã, a ouvir a chuva a cair e a sorrir por não ter que sair naquele dia às oito da manhã. Não ter que sentir o frio a cortar a minha pele e estar ali quentinha enrolada nos lençóis. Estas pequeninas coisas como acordar e ficar na cama, um pacotinho quente de castanhas assadas, Sugos com sabor a limão, um rebuçado floco de neve, dançar sozinha ao som de uma música que já não ouvia há imenso tempo.. são todas especiais para mim. Ver-te sorrir.. ver os teus olhos transparentes e deixar os meus lábios mergulharem nos teus. Consegues o impensável, os meus olhos fecham à medida que o som da rua se vai tornando mais distante, as pessoas à nossa volta vão desaparecendo, os problemas esfumam-se! Estou noutro lugar qualquer só teu e meu, o tempo pára.

Quando abro os olhos, estou de volta à realidade. Há barulho, há coisas que fazer, há o tempo que passa, corre e foge por entre os meus dedos. Lembro-me de ter estado num estado de graça apenas há cinco segundos atrás. Nunca te vás embora.. preciso desta sensação que me provocas sempre que estás perto de mim, preciso de viajar até áquele sítio só nosso de vez em quando. De vez em quando, preciso de voar daqui..

terça-feira, novembro 15, 2005

Branco e Negro

Não te percebo nem nunca te hei-de perceber. Mas isso é uma coisa que gosto, se te conhecesse de trás para a frente, aborrecia-me. A verdade é que não tens nada de monótono, mas várias vezes me desiludes. É como se, a cada seis horas, estivesse com uma pessoa diferente. Tanto és atencioso e carinhoso, como distante e fechado em ti. Não te compreendo tantas vezes que penso que te ias embora se to confessasse. Sinto-me atraída porque és diferente, porque não te entendo. Porque és lindo e horrível. Porque me fazes chorar e rir mais do que qualquer outra pessoa. Porque não sou indiferente à tua presença, porque não confias em mim, por tudo pelo que te deixei ir, por tudo pelo que queria que voltasses e por tudo pelo que não te aceitei de volta. Estavas a mudar-me e eu não gostei da transformação. Quando me apercebi, não estava a tornar-me no que eu queria e tu nem deste conta. Eras tão fechado em ti como devoto a mim, sempre de extremos. Lembro-me de fazermos um daqueles testes online e tu seres um mago negro e eu uma maga branca.. é incrível como algumas parvoíces roçam a realidade.

Tenho saudades de me sentar no teu colo e estar só assim, sem palavras (eu era genuinamente feliz nestas alturas, sabias?). Tenho saudades de me fazeres rir onde quer que seja (atraindo público ou não), dos teus poemas, do teu cheiro, do teu cabelo revolto. Não tenho saudades de me deixares de falar durante dias por leres nas entrelinhas algo que eu nunca disse, por achares que me viste onde eu não estava, por tudo que acreditas que não podes ser e pelo que acreditaste que eu podia ser.

Às vezes pergunto-me como seria agora. Teria dado a volta por cima e seria feliz contigo? Será que te ia mudar? Acho que nunca me perdoaria se tu mudasses. És lindo e eu tenho medo que cresças e deixes de o ser. Mas também és um desastre, demasiado mau para ser verdade. Se te entendesse, perdia-me a mim. Desculpa.

segunda-feira, novembro 07, 2005

Aeroporto

Sempre que estou no aeroporto, fico a observar as pessoas. Não consigo evitar olhar para tudo o que se passa como se o tempo parasse para mim e o meu leitor de mp3 me oferecesse a banda sonora do filme que se desenrola diante dos meus olhos. Até podia estar farta de aeroportos, mas não estou. Estou farta de voar, isso sim. Continuo a adorar a descolagem e a aterragem, mas o resto é sempre tudo igual, podia passar-se em qualquer lado e o cheiro do catering põe-me logo de dieta.

Não sei porque gosto de aeroportos. Talvez pelas sensações diferentes, pessoas diferentes, línguas diferentes. Caras de aventura, caras de saudade, caras de felicidade, caras de tristeza, caras de monotonia (acompanhadas de uma pasta de executivo). Montras de souvenirs. Abraços sentidos, bagagem, seguranças, hospedeiras, filas de check-in, écrans com informação sobre os vôos, buliço de conversas cruzadas e telemóveis, revistas e jornais estrangeiros, avisos em voz alta em várias línguas igualmente incompreensíveis.. fotografias de despedida. As despedidas.. não desgosto delas, fica uma sensação de "até qualquer dia (espero eu)". Ninguém aqui se despede com indiferença, mas sim como namorados que vão ficar alguns dias sem se ver e que se olham como se nunca mais se fossem encontrar.

A minha banda sonora mudou para Leaving New York dos REM. Na "mouche"! É por isto que não há discussões nas despedidas. É capaz de ser mais difícil para quem fica do que para quem vira costas direito à porta de embarque, mas em ambos os casos fica uma nítida sensação de abandono. Eu sinto sempre que abandono qualquer coisa que já faz parte do que sou. Não faço ideia das divisões que tenho dentro de mim, sou de tanto lado que deixei de pertencer onde quer que seja. Tenho sempre saudades das pessoas, dos lugares e das paisagens, do cheiro, do vento, do ar de outros locais onde não estou. Não sei porquê. Talvez um dia volte a sentir que pertenço a algum lado, que a minha "casa" está num sítio especial. Não sei quem dizia que é preciso cortar as raízes antes de voar. É verdade, eu voei.