sexta-feira, outubro 27, 2006

Outro Outono

Nesse dia cheguei tarde a casa, andava cheia de trabalho. Tinha tanta coisa para fazer que já não bastava escrever na agenda, precisava mesmo de memorizar algumas coisas. Estar constantemente a rever tudo o que tinha que fazer criava-me uma certa dificuldade em desligar ao chegar a casa. A informação toda que voava de um neurónio para outro toldava-me a fome, a sede, a vontade de fazer o jantar e de ouvir música (televisão foi coisa que nunca me atraiu).

Nesse dia lembrei-me de inventar qualquer coisa para relaxar, fui buscar um cobertor grande, puxei o sofá para trás, tirei a mesa da frente e estendi o cobertor no chão. O sofá era de facto mais confortável, mas a coisa compôs-se com uma ou duas almofadas e música muito baixinha. Deitei-me ali, a imaginar como seria se eu de facto tivesse uma lareira. Não sei quanto tempo fiquei assim, provavelmente adormeci. Despertei com o som do telemóvel, aquele bicho que tanto nos consegue fazer sorrir como cerrar os dentes com força. Confesso que demorei um certo tempo a equacionar se valia a pena levantar-me para ver o que se passava, afinal já passava da meia noite e eu estava a sentir-me tão pequenina, tão agasalhada, tão bem.

Ao fim de alguns minutos, acabei por esticar o braço ao máximo e lá consegui pregar com o telemóvel no chão. Na mensagem dizias que tinhas acabado de sair da Universidade, ainda nem tinhas jantado e querias saber se o pessoal se tinha juntado todo aqui (como é normal à sexta-feira). Passaram-me várias coisas pela cabeça como ignorar a mensagem e continuar a desfrutar do meu "ninho", no entanto, acabei por te dizer para onde tinha saído toda a gente e que eu estava sozinha, não valia a pena vires cá. Mas tu vieste na mesma... aparentemente também não querias meter-te em ambientes confusos naquele dia, nada de muitas imagens, gente a falar, fumo, música alta... Não estava à espera que viesses, não estava mesmo. Mas sabes que mais? Foi o melhor que podias ter feito.

Ainda consigo ver-te a entrar na sala com o pacote de castanhas assadas na mão. Ainda consigo sentir o sorriso e a sensação quente que deixaste que alastrasse dentro de mim. Acho que também te rias da minha cara gulosa e dos dedos sujos do carvão das castanhas. Sentaste-te comigo no chão, queixaste-te que te doía o pescoço mas não foste para o sofá. Acabaste por deitar a tua cabeça e os teus caracóis no meu colo, assim ao contrário do que acontece nos filmes.


Folhas escarlates e castanhas assadas: as únicas razões que me fazem abraçar o Outono. Ficámos a noite toda juntos e eu nunca me esqueci... até porque tu nunca gostaste de castanhas assadas.

quarta-feira, outubro 18, 2006

Ode aos críticos de cinema

Se há coisa que eu não compreendo é exactamente para que servem os críticos de cinema, especialmente em sites onde o público também vota. Do meu ponto de vista, um crítico de cinema devia esclarecer os pontos fortes e fracos do filme. Se possível, explicar se vale a pena dar 5 euros por ele e comparar a algum filme já conhecido para dar uma vaga ideia da coisa. A maior parte dos críticos de cinema só serve para correr com o pessoal dos cinemas (seria essa a ideia original?).

Existem os críticos "enciclopédia", sabem tudo do passado dos realizadores: onde nasceram, as influências, as notas da escola, a primeira curta-metragem, quando é que o filme foi exibido pela primeira vez, os prémios que recebeu, excertos de entrevistas, etc. Comparam o filme actual com um qualquer que a criatura fez há 20 anos e dizem que esse é que era bom. Ficamos sem perceber se o filme vale ou não os 5 euros.

Os críticos "pessimistas" acham que qualquer filme é mau, os filmes bons eram na altura da Maria Cachucha ou de um realizador que nunca ninguém ouviu falar. Acham que o pessoal de hoje em dia não faz ideia do que é realizar um filme, divagam sobre outros filmes com o mesmo tema que, segundo eles, são obras-primas e esquecem-se do filme que deviam criticar.

Há aqueles que contam o filme do princípio ao fim: "O filme começa com o José que é desempregado, entretanto conhece Lúcia, o amor da sua vida, e a mãe dele morre em circunstâncias misteriosas. Todos suspeitam de Lúcia mas o verdadeiro culpado é o cunhado". Estes resolvem-nos o problema: ficamos logo sem vontade de ver o filme.

Existem também os críticos "surrealistas", são capazes de ver um arco-íris no "Branca de Neve" de João César Monteiro. Por alguma razão (que não o excesso de dioptrias), vêem um filme que não é o que o realizador fez. No plano de uma barraca conseguem encontrar uma crítica à sociedade e o facto de existir um arbusto na cena é uma clara menção à política de Bush. O chato é que podemos ficar muito entusiasmados com o filme e depois achar que não percebemos nada (ou pelo menos não entendemos o que o crítico entendeu).

E temos ainda aqueles que não viram filme, copiam as críticas estrangeiras e ficam muito felizes com isso. Sai sempre qualquer coisa como: "filme muito aclamado no festival porco de prata" o que deve querer dizer que é bom ou "o filme passou despercebido nos Estados Unidos" o que não diz nada porque, já se sabe, a opinião dos americanos não interessa nada.

Ora bem, o que é que acontece na realidade? Ninguém liga nenhuma aos críticos e o pessoal vai aos sites onde o público vota. Se há 200 pessoas a votar menos de 3 estrelas, fujam do filme! Nenhum português dá menos de 3 estrelas a menos que os 5 euros que gastou tenham sido mesmo mal gastos! Acima de 4 estrelas começa a ser um bom filme. E depois, acabo por gostar mais dos filmes comerciais do que daquelas "obras de arte" que os críticos idolatram (e que me fazem dormir).

terça-feira, outubro 10, 2006

Quando é que mudou?

A respiração volta devagarinho ao normal, o batimento cardíaco continua rápido e o meu corpo brilha do suor que ainda não foi absorvido pelo que resta do lençol... Agora já consigo pensar, consigo partilhar o que penso de ti, de nós. Assusta-me pensar até onde que chegámos. Olho para ti, um sorriso cansado mas sincero, olhos meigos que realmente se preocupam comigo.

Como chegámos até aqui? Evito pensar em toda a minha família, evito pensar na tua. O que realmente me preocupa é: quando é que passámos a conhecer-nos demasiado bem? Quando é que passámos a precisar um do outro? Quando é que passou a ser verdadeiro?... A situação assusta-me um pouco, não te consigo ver sem me imaginar a tirar-te a camisa e ao mesmo tempo não compreendo como arrasto a situação sem mexer um dedo para lhe colocar um ponto final ou talvez um inicial, apesar de tudo.

Conta-me o que sentes, conta-me porque me queres, conta-me porque é que pensaste que eu era a mulher da tua vida. Conta-me como vamos ter um futuro doce sem dificuldades, conta-me enquanto estás aqui comigo a sorrir e a olhar-me nos olhos. Conta-me histórias...

sexta-feira, outubro 06, 2006

Fado triste

Como almocei mais cedo do que o normal, em vez de ver as notícias fui "presenteada" com um programa da manhã (menos mal porque era na RTP1). Parece que hoje é dia de festejo, acredite-se ou não, estão a festejar o facto da Amália ter morrido há 7 anos. Eu sou a favor de aproveitarmos todos os momentos para festejarmos, quer alguém tenha morrido ou não.

Ok, eu não percebo nada de fado.. é verdade. Sei o nome da Amália pela mesma razão que sei o do Eusébio (não tem nada a ver com lontras) e já vi mais vezes um remate do Eusébio do que ouvi um fado da Amália. Aquele tipo de música não me puxa nada, não sou capaz de ouvir e deliciar-me. Mas posso opinar na mesma: que raio de caretas são aquelas?! Eu sei que os guitarristas têm a mania de fazer caretas ou meter a língua de fora quando prolongam uma nota aguda, mas o que é aquilo? Eu nem ouvi o que é que a Kátia Guerreiro estava a cantar, a minha atenção estava toda na cara que espelhava um sofrimento terrível, um verdadeiro parto sem epidural a cada sílaba. O queixo estava apontado para o PoSAT e a cara de sofrimento a olhar para o tecto só fazia pensar em que tipo de tortura inquisitória é que o tecto lhe estava a infligir. Anda aí tanto actor que não sabe fingir sofrimento e afinal basta aprender a fazer um playback de uma fadista! A única parte chata é mudar o argumento para ter o criminoso a atacar sempre por cima.

Como não estavam satisfeitos, resolveram levar dois guitarristas e procurar populares que quisessem cantar um fado "amaliano". Numa escolha que me pareceu perfeitamente lógica, foram ao mercado do Bulhão. Curiosamente aquilo não caiu e nenhuma mulher tinha sotaque do norte. Acho que as reportagens sobre o fecho do mercado são fictícias, quando se deu a confusão toda não havia uma entrevistada que falasse sem sotaque.. seriam figurantes?
Aí percebi finalmente o sofrimento da Kátia Guerreiro, tive um momento de escuridão total: aquelas "fadistas" resolveram abrir a goela e nuns minutos que duraram uma eternidade mostraram que é possível saber de cor uma música, ouvi-la mil vezes por dia, adorar a Amália e não acertar numa única nota, bravo! Os meus tímpanos pediam clemência, o meu queixo deixou-se cair de terror e desconfio mesmo que as celulazinhas que interpretam o som para sinais eléctricos estavam a planear um suicídio colectivo. A felicidade é que no meio de tanta tragédia, o microfone deixou de funcionar (partiu-se), entregou a alma ao criador e aposto que nunca pensou que pudesse vibrar tão sofrivelmente sem ter sentimentos.

Sim senhor, aquilo é o que eu chamo de homenagem! Ou talvez de crime público, não sei.

sábado, setembro 30, 2006

Eras tu?

...E tu chegaste tão perto
Que te apertei no meu peito
Já não era uma miragem
Era a sério, eras tu..

Faz tanto tempo, tanto tempo
Faz tanto tempo e eu não esqueci...

O que é que seria chegar aos 50 anos, olhar para trás e pensar "epá, eras tu?!". Assim tipo realização de última hora, a pólvora depois da guerra. Sei que não me ia atirar da janela porque isso dava muito trabalho, rir para não chorar era capaz de ser a melhor hipótese e também ficar quieta até digerir a informação. Vistas bem as coisas, isto até tem lógica... afinal, saber que alguém nos é verdadeiramente importante nota-se melhor ao fim de algum tempo, quando conseguimos ver as coisas com uma certa distância racional e dissipar o nevoeiro emocional. Neste ponto, estas duas almas gémeas devem estar casadas e com filhos, cada um na vidinha que traçou. Será que vamos olhar para a outra pessoa da mesma maneira? Será que não vamos tentar captar-lhe a atenção? Será que não sucumbimos à vontade de a puxar para um canto e soprar-lhe ao ouvido que é "a tal"? (Expressão correcta segundo o meu guru) A única coisa que me parece chata em deixar ficar tudo na mesma, é que na realidade nada fica na mesma, a comparação entre o que se tem e o que se poderia ter é inevitável.

Ao estilo das "Pontes de Madison County", o que fazer quando podemos escolher entre a pessoa que nos acompanhou até ali e a pessoa com quem queremos realmente estar? Quando podemos cortar com a nossa vida, largar tudo e começar algo radicamente diferente que, apesar de estar certo, pode ter um sabor amargo? Será que temos coragem de cortar com tudo, mesmo que seja a vidinha mais monótona à face da Terra que jurámos aos 20 anos que nunca íamos ter? E se tivermos coragem, como é que se começa uma vida feliz sabendo que magoámos as pessoas de quem mais gostávamos? Afinal, o amor manifesta-se de tantas formas.. é tão fácil amar duas pessoas ao mesmo tempo.

Apesar de ter a certeza que sou dona do meu destino e que as curvas aparecem quando eu resolvo mudar de rumo, tenho uma certa fé (esperança?) que a nossa vida nos cruze mais do que uma vez com o rumo certo (ou seja, que podemos fazer asneira e ser felizes na mesma). Acredito que o tempo que perdemos entre esperar "a tal" pessoa e a arriscar com a errada é-nos dado diversas vezes. Temos é que aproveitar as nossas escolhas da melhor forma... mesmo que as troquemos após 50 anos.

segunda-feira, setembro 11, 2006

A (des)Química do Amor

A minha ideia de amor é um bocado estranha, suponho que me encontro numa minoria, mas descobri há pouco tempo que não sou a única a partilhar este ponto de vista. Antes de mais, quero dizer que tenho a perfeita noção que sou uma namorada a dar para o muito mau! A parte chata é que eu não estou a pensar em mudar (dá trabalho e eu tenho falta de tempo).

Talvez seja excesso de racionalidade numa área em que ela não devia participar (foi o que me disseram), mas eu sinto que o amor por alguém é eterno até aparecer outro "melhor". Não estou a dizer que essa pessoa tenha que existir ou que "melhor" seja mais rico, mais bonito ou mais inteligente. Desconfio mesmo que há gente que se farta de estar bem e que troca um companheiro espectacular por alguém que pode nem ter os dentes todos ou ter uma anomalia cerebral qualquer, mas com quem houve um click! Parece que a culpa é da química cerebral.. Isto de ter uns circuitos que resolvem disparar quando bem lhes apetece deixa o amor na corda bamba!

Não vou ao ponto de acreditar que o amor dura 4 meses (como não sei quem escreveu), mas a verdade é que acho que depende mais do meio ambiente do que deveria. Antigamente era muito bonito, as pessoas conheciam 15 vizinhos, escolhiam um para casar e passavam o resto da vida a conviver com as mesmas pessoas. A única maneira do casamento dar raia e de se querer trocar o companheiro de almofada era quando aparecia um vizinho novo! Agora passamos os dias a conhecer gente, todos os anos há caras e personalidades novas nas empresas, festas, escolas, chats, etc. Isto quer dizer que o nosso companheiro vai ter que ser "melhor" do que as milhentas pessoas que conhecemos anualmente. É um pouco como pedir que o nosso cérebro se deixe estar quietinho e não se meta em confusões quando o novo chefe se aproxima...

Soube que 1 em cada 3 casais que vão de férias voltam separados, isto de domar o cérebro não é fácil! Vou acabar este devaneio com o Burt Bacharach:

...So for at least until tomorrow
I'll never fall in love again

quarta-feira, maio 17, 2006

Quase poema...

Apareceste vinda do nada e fizeste um estrondo tão grande cá dentro que me senti acordado de um sono profundo por um trovão imenso. Não sei de onde vieste, nem faço a mínima ideia de quais são os teus planos ou para onde queres ir, não sei como apareceste aqui, mas rogo-te para que fiques comigo esta noite. Enches-me a alma de alegria, só de olhar para ti sou forçado a sorrir por sentir o meu peito tão cheio de felicidade transbordante. Tenho a certeza que o meu coração vai bater tanto esta noite que nunca mais vai tomar o ritmo certo quando tu não estás. Esta noite sinto-me capaz de salvar o mundo quando te abraço com força, quando sinto o calor e o suor do teu corpo colado ao meu. Não há guerra que consiga vencer um beijo teu... tão quente, tão cheio, tão certeiro. Tanta vida... tanto movimento, alimentas o meu espírito de tal modo que eu tenho a certeza que ele andava sedento e praticamente morto antes de te conhecer.
Eu disse-lhe um segredo: não partas nunca mais. E dançou, rodou no chão molhado, num beijo apertado de barco contra o cais...

E uma asa voa a cada beijo teu,
Esta noite sou dono do céu...

sexta-feira, abril 28, 2006

Ao longe

Ela olha para ele de cima a baixo e descobre que tudo o que mudou nele não muda nada, é ele na mesma. A mesma pele agora um pouco mais queimada, a barba mal cortada que arranha ligeiramente, as mãos sujas da terra que lhe cobre a roupa e os olhos tristes. Os olhos é que ela não reconhece, já não são dele.. através deles ela sente a alma a gritar de resignação.

Eu estou quieta a observá-los, a sentir a respiração contida e os olhares de redescoberta, de medo. Ela esboça o primeiro sorriso e ele encarreta uma conversa banal. Quebram o gelo, finalmente. Conforme ele vai andado, ela segue-lhe os passos com o mesmo sorriso feito que tinha há pouco.. nunca se colocam a par, mas falam e, às vezes, até riem. Ela observa o que poderia ser ela ao conhecer no que ele se tornou e a vida que abraçou. O medo desvanece por completo e dá lugar a um novelo de pensamentos entrelaçados. Tanto temor para quê? Tanto nervoso miudinho, tanto esfregar de mãos e respiração cortada sem querer, para quê? O tempo é demasiado poderoso. Ela vê o tempo a passar nos olhos dele, cada grão de areia que cai no fundo da ampulheta e ela sente-se tão feliz! Feliz porque aquele não é o futuro dela. Tudo o que ela passou, as novidades, as mudanças, as noites em claro, as lágrimas teimosas, a ansiedade, a confusão, o medo de não voltar.. E para quê? Ali estava ela, exactamente onde queria estar. Curiosamente, naquele presente ele não tinha qualquer papel senão na cabeça dela, nem um mísero figurante era! Continua atrás dele mas o sorriso que agora leva estampado na cara é verdadeiro, o brilho nos olhos dela contrasta tanto com o baço dos dele, que qualquer pessoa poderia ver a necessidade que ele tem de o sorver nos dela.

"Temos que repetir isto mais vezes"
Ela acena que sim com a cabeça mas tanto lhe faz. O medo desvaneceu, afinal não era nada. A quantidade de coisas com que ela se preocupa antes de acontecerem é assustadora, mas ela está a aprender que só se deve preocupar com o que acontece, a vida prova-lhe isso a cada momento. Eu vejo-a a recuperar o sorriso alegre, a ser senhora de si e da vida que leva, especialmente da felicidade que sente por ter chegado até ali, ou melhor, aqui. Sorrio também e abandono a minha postura petrificada. Ela despede-se dele com um aceno, enquanto ele espera um abraço. Não obstante, pega-lhe na mão para a ajudar a entrar no carro. Ele fica parado, de pé, a dizer adeus enquanto ainda sente o cheiro dela no ar que o envolve. E se era ela o que ele realmente queria? Mesmo depois deste tempo todo? Sabia a dificuldade que tinha sentido em pegar-lhe na mão e tinha reparado na falta de atrapalhação dela. Olhos tão vivos que poderiam ser agora os dele... Bem, não interessa pensar nisso porque o presente dele é a terra que o cobre de cima a baixo. Vejo-o voltar para casa a massajar a mão com que tocou nela, acender a televisão e a mergulhar no sofá. Eu sorrio da liberdade recentemente descoberta.. e de não ter qualquer sensação na minha mão.

terça-feira, abril 04, 2006

Manhã de Natal

Olho para ti de uma maneira que espero que mais ninguém olhe. Não é que tenha sentimentos demasiado egoístas, mas tenho a necessidade de pensar que mais ninguém vê aquilo que eu consigo ver. Quero ser a única a ter este ponto de vista, como uma fotografia premiada ou uma perspectiva especial que mostra toda a beleza escondida de um local. Tenho aquele olhar com que contemplava as prendas que desembrulhava na manhã de Natal, quando finalmente encontrava a que eu desejava mais. Eu não sentia que havia mais uma centena de miúdas com a mesma boneca, simplesmente aquela era a minha boneca e eu era capaz de olhar para ela como mais ninguém era. E acredito que há muita gente que percebe perfeitamente o que eu sinto e que partilha do mesmo, mas não quero saber dessa verdade. Esta visão é minha e tudo o que eu sei ou sinto cá dentro não é para descrever ou confessar a mais ninguém.

Quanto mais olho para ti, mais descubro que há pormenores que me estão sempre a escapar. Sei as expressões e consigo repeti-las só para mim dependendo do tom com que falas, mas sei que nunca vou saber tudo e isso é bom, reconfortante. Continuo curiosa a tentar descobrir tudo o que não sei. Ainda me surpreendo quando estou a olhar com menos atenção e, de repente, aparece a minha imagem que é a tua na verdade. É quase como se estivesse a olhar para outra pessoa que quero conhecer minuciosamente, cada mudança no tom de pele, as rugas no canto dos olhos e dos lábios, o sítio onde apetece mais tocar no teu cabelo, o espaço por detrás da clavícula que me guia até ao teu pescoço. Nada é meu, mas eu sinto que só eu é que sei daqueles pormenores escondidos nestes locais minúsculos. Não vale a pena perguntar o que estou a pensar porque eu não sei responder ao certo. Estou a elaborar uma biblioteca privada sobre ti dentro da minha cabeça, tentar que não me escape nada, não quero esquecer nada... É isto que me faz fundir em ti.

sábado, abril 01, 2006

O post dos porquês

Hoje sinto-me com 3 anos (só hoje, mais coisa menos coisa) e apetece-me perguntar o porquê de tudo. Resolvi então recorrer à minha idade "quase-adulta" e em vez de chatear alguém em particular, vou chatear toda a gente que cair na asneira de ler isto! Democrático, não é? Ora cá vão algumas coisas que me afligem hoje, amanhã logo se vê.

Para começar, vou gastar já o meu melhor cartucho e esperar que alguém me tente matar ou, na melhor das hipóteses, deixar de falar após ler o que se segue. Ora cá vai disto:

Porque é que há gente com dois nomes próprios que não soam bem nem ao menino Jesus?! Há por aí nomes que conseguem superar os da pimbalhada e que não soam bem nem ao fim de muitos anos de convívio (com prática lá se consegue treinar o tímpano para não reagir.. demasiado). A mania de meter dois nomes que não têm nada a ver um com o outro ultrapassa-me. Parece que alguém não conseguiu decidir entre dois nomes e, em vez de ter dois filhos, sacrificou logo o primeiro rebento com medo que o segundo se recusasse a aparecer. Será que custava muito registar as criancinhas com um nome provisório e depois esperar que elas atingissem os 18 anos para decidirem? Meter o nome de Maria a rapazes só funciona se lhes sair um brasão de armas na lotaria; Tito era o nome do cão da vizinha do rés-do-chão da minha avó; nomes quase-portugueses como Priscilla são impronunciáveis; Cristiano Ronaldo nunca vai soar bem e Pascal André também não!!

Porque é que os bébés são adoráveis? Sinceramente, os bébés são vermelhos ou roxos (depende do nível de obstrução do ranho à passagem do oxigénio), feios, babam-se muito, berram ainda mais, vivem com os próprios dejectos colados ao corpo e não fazem absolutamente nada de útil! Podiam sei lá, fazer uns números de circo ou de stand-up para entreter a mãe que anda há dois meses sem dormir e evitar uma depressão pós-parto? Fazer bolhas de saliva não é considerado entretenimento.

Porque é que eu não sou uma portuguesa a sério se não gostar de bacalhau?
Isto vem na constituição portuguesa?! Bacalhau cozido é horrível e quem quer que se tenha lembrado disto para a ceia de Natal só não vai parar ao inferno porque é Natal e há muitas sobremesas para fazer esquecer a fome. Porque é que não sou miúda se não gostar de passar horas intermináveis a comprar roupa? E mais ainda: porque é que o café (que é amargo) é suposto ser bom depois de levar com 1kg de açúcar em cima!?

Porque é que os pastéis de nata dão tanto trabalho a fazer? Raio dos bolos que são tão bons e aquela massa folhada só serve para quem não tem mais nada que fazer.. (E desculpem lá, mas a massa folhada congelada nem se compara!)

Porque é que a TVI é o canal mais visto em Portugal?.. Isto tem a ver com o facto de eu não gostar de bacalhau e de café e não entender o gosto típico do português?

Porque é que as mulheres não podem dar missa?
Sermões todas as mães dão.. Além de machismo, isto tem mais alguma coisa associada? Na Inglaterra é permitido e não me parece que as pessoas tenham deixado de acreditar na sua religião por causa disso. Isto tem tanta lógica como proibir as mulheres de entrar para a escola primária. (Eu sei que há homens a favor desta última, mas para esses: ainda é a vossa mãe que vos compra roupa e a mete numa cadeirinha no dia anterior para vocês a vestirem no dia seguinte, não é?..)

quinta-feira, março 09, 2006

Número de engate

Ok, e pensava eu que engatar pessoas pela Internet era estúpido. Acho que descobri a última moda dos desesperados deste país, a diferença é que agora a vítima têm que ter telemóvel e não uma vagina (coisa extremamente difícil de encontrar, portanto). O que se segue não é pura coincidência, tudo o que vou escrever é rigorosamente verdade.
Na semana passada recebi a seguinte sms de um 91 que me sinto na obrigação de partilhar:

"Ola tudo bem? Marquei o teu n ao acaso e acreditei que podia nascer uma amizade entre nos, o que achas? Vamos desafiar o destino? Chamo-me Antonio."

Estive mesmo para responder "Olá, eu chamo-me Xavier" mas depois desisti. Primeiro porque não tenho nada contra as pessoas chamadas Xavier e depois porque as sms custam dinheiro, parecendo que não, custa ver o saldo a diminuir com este tipo de coisas. Guardei a sms para me poder rir quando me apetecesse e não me lembrei mais disto até hoje. Ora bem, hoje recebi mais duas sms erradas e que, por sinal, eram declarações amorosas (não sei se ainda vinham em atraso da época dos arrulhos) - assim um bocado parecidas com aquelas da TV: marque "amor 3434" e receba uma sms para enviar à sua cara metade visto você ser demasiado estúpido para conseguir escrever uma sozinho e não ter amor ao dinheiro. De qualquer modo, senti pena por saber que havia alguém lesado em duas declarações amorosas (ao par sai mais barato?). Não me queria armar em anti-cupido e respondi gentilmente que as sms não eram para mim, mas que desejava boa sorte com a pessoa certa! E não é que me responderam? Ah pois é! O mundo das mensagens de 160 caracteres não pára de nos surpreender (desta vez de um 93):

"Obrigado.. e peço desculpa pelo engano que já é a 2ª vez. Posso saber o nome de tão simpática pessoa?"

Ai, dor..
Devo dizer que o meu número de telefone é praticamente impossível de decorar, a série não têm lógica nenhuma e a única coisa que pode chamar a atenção é que tem "69" no fim. Será por causa da terminação? Será por isso que só me sai disto? Mas há assim tanta gente a querer engatar o meu número de telemóvel?! Eu sei que estamos quase na Primavera, eu sei que os passarinhos já andam a fazer os ninhos, as árvores estão a ficar esverdeadas e até o Benfica passou aos quartos de final, mas mesmo assim, não havia necessidade.. (Banda Sonora: Desperado dos Eagles).

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

O dia das serpentinas apaixonadas

Pois bem.. o dia dos namorados. No ano passado evitei ao tema, mas este ano resolvi falar dele. Primeiro que tudo (e porque acho isto muito importante) o dia 14 de Fevereiro é o dia europeu da disfunção eréctil. Sobre este último não digo mais nada porque o sentido de oportunidade já é suficiente. Depois também acho interessante festejarmos com muitas rosas e beijos o dia da morte do S. Valentim, torturado.. claro! É bom sabermos que mataram um padre porque ele casava os rapazes que estavam bons para ir para a guerra e o governante da altura não achou piada. Como os casamentos continuavam em grande número, alguém resolveu cortar o mal pela raiz e matar o padre. Coitado! Já nesta altura a união de facto tinha poupado uns tantos problemas jurídicos.

Isto de ter as lojas todas vermelhas, cheias de corações e peluches é um bocado foleiro. A verdade é que as lojas no Carnaval estão muito mais alegres com serpentinas, máscaras de palhaços,ursos, índios.. sei lá, um nível de foleirice um bocadinho mais baixo. As pessoas estão com outra disposição, ninguém se chateia por tentar jantar fora e os restaurantes estarem preparados apenas com mesas a dois com a porra das velinhas. Porque não juntar as duas festividades? Porque não ver as famílias com as crianças mascaradas (ou mascarradas) nos restaurantes assim como um lobisomem a jantar com a menina da GALP pluma? Ou um fantasma a abraçar um crocodilo? É que além de um dia para fugir ao nosso aspecto diário e do aspecto da pessoa que vemos mais vezes (ou talvez não) há outras tantas facilidades a ter em conta: se estiveres apaixonado por uma pessoa do mesmo sexo, ninguém fica a olhar para ti de lado se fores vestido de mulher/homem, podes sair dos restaurantes/bares sem pagar porque também ninguém viu a tua cara e, de qualquer maneira, com a luz das velas podes sempre começar um pequeno fogo de distracção com as serpentinas!

Mas o dia dos namorados também tem coisas giras. Ver grandes filas de homens nas floristas (depois da hora de saída do emprego) e ver homens que se metem na fila e compram flores porque sabem que é um dia especial, mesmo que não saibam exactamente qual. É aqui que a publicidade ajuda e não serve só para testar o daltonismo, é impossível que exista alguém que não perceba que o dia dos namorados está a chegar, mesmo que seja um despistado nato! É sempre bom termos a certeza que não nos vamos esquecer destes dias, não vá alguém levar os esquecimentos a peito! Também é verdade que os namorados fazem questão de mostrar que gostam um do outro quando lhes apetece, não precisam de dia pré-definido. Este dia é então uma boa desculpa (como outra qualquer) para uma escapadela dos que estão juntos há uma eternidade, até porque há borlas nos telemóveis e descontos em pousadas que devem ser aproveitados!

Estão a ver, nem tudo é mau na época da invasão da coronária vermelha!
Mas a melhor parte deste dia, que é mesmo boa, é que aparecem morangos em todos os hipermercados a um preço fabuloso! Mesmo em caixinhas de plástico reles em forma de coração, temos morangos doces em Fevereiro e eles fazem-me pensar que há sempre um bocadinho da Primavera todo o ano em todo o lado.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Tudo bem?

O que é que queremos realmente dizer quando perguntamos "tudo bem?", será que estamos mesmo interessados na resposta? Acho que, em 80% dos casos, o pessoal se está a marimbar. O início de conversa mais batido é o belo do "olá, tudo bem?" e a reacção posterior é quase sempre a mesma quer a pessoa nos diga que se tentou mandar duas vezes de uma ponte abaixo quer diga que descobriu um chá espectacular para os nervos. Só respondemos à parte do "e contigo?" de onde sai o típico "tudo (bem)!". Perguntar se está tudo bem é, basicamente, uma questão de boa educação, o estarmos interessados na resposta já é pedir muito..

Perguntar a alguém se está tudo bem é um bocado arriscado se for ao vivo. Pode ser que a coisa corra bem, que a outra pessoa se fique por um "tudo bem e contigo?" e cada um siga o seu caminho. O problema é se a coisa corre mal e a outra pessoa está a precisar de desabafar com alguém (e está tão desperada que nem se importa se for connosco). "Epá, nem imaginas o que me aconteceu! No outro dia fui ter com a minha prima - aquela que mora para os lados de Algés - e não é que o carro.." - é a altura em que largamos algumas pistas subtis: olhar insistentemente para o relógio; ".. e depois o homem disse que só se eu fosse à oficina do Zé, aquele que já foi vizinho do meu avô,.." - evitar o contacto visual e procurar alguém conhecido nas redondezas; ".. eu já estava a ver a minha vida a andar para trás, sabes que eu não disse à Ana que lá ia.." - cruzar os braços e ser incapaz de acompanhar a conversa sem ser com "humm", "ah", "pois"; "..e no meio disto tudo, nem adivinhas quem é que eu encontrei! Ah pois foi, a Felisberta! Ao fim deste tempo todo, a vida tem cada uma.." - nunca se deve perguntar "a sério?" ou "ah sim?" porque isso dá para, pelo menos, mais dez minutos de monólogo. Se a grafonola se lembrar que tem dois ouvidos e que eles não estão a processar informação, então é capaz de perceber que se está a alongar um bocado e tenta que a coisa se torne num diálogo não monossilábico.

A pior parte é que quando devíamos deixar a boa educação em casa é que a esbanjamos.. velhotes, essa calamidade nacional! Somos todos sorrisos e damos um "olá!" rasgado, elogiamos a boa forma e perguntamos ao mesmo tempo que nos arrependemos: "tudo bem?". É a catástrofe, desastre total! Vamos passar os próximos dez minutos (optimismo) sem abrir a boca, onde o nosso interlocutor nem está preocupado se respondemos por monossílabos ou se não respondemos sequer, o que interessa é despejar o rol das enfermidades que ele/ela tem. É incrível como todos os velhos têm todas as doenças possíveis e imaginárias (deles e dos conhecidos deles), querem ser o supra sumo das doenças (como nós competimos por telemóveis, carros e respostas às perguntas do Trivial) e lá estamos a aturar tudo com o sorriso mais plástico que conseguimos porque ele nunca devia ter aparecido. Ficamos a saber das manchas que apareceram no dedo grande do pé, assim como do provável problema hepático (porque o Joaquim que mora na esquina também tem esse problema), da queda de cabelo, do cansaço, desconfiam que têm cancro, problemas respiratórios, cardíacos e que o médico é um incompetente porque não encontra nenhuma doença que não seja a velhice! Nós despertamos e despedimo-nos quando nos dizem a única coisa que se aproveita: para aproveitarmos a vida enquanto somos novos!..

Para poupar uns anos de juventude.. vou evitar perguntar se está tudo bem.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Porque votaste sim

Sinto-me demasiado aprisionada dentro de mim própria. O meu corpo rege-se por outras ordens que não as minhas. Estremece ao mais leve sussurro, sente-se irremediavelmente atraído, não pára de ferver sentimentos embrulhados que não consigo conter. Não consigo mudar de canal dentro da minha cabeça, não consigo parar de respirar o ar guardado dentro de mim, não consigo fechar os olhos e imaginar outro lugar. Não consigo sequer tentar, parece que não sou eu. Não consigo imaginar mais nada, não quero mais nada, não consigo parar. Acho que me deixei cair fundo demais dentro de mim.. Foi demasiado depressa e nem me deu tempo para abrandar. Às vezes chateio-me comigo, não consigo fazer nada para inverter a situação. Nem sequer me apetece. Tomaste conta de mim.

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Considerações da passagem de ano a três

Como mudou o ano, é altura para reflectir.

Sou só eu ou o dia 1 não serve para fazer nada de útil? Se não fosse feriado, era uma greve geral a nível nacional (e não só do sector público). O dia 1 espelha todas as coisas que gostava de fazer no dia-a-dia do ano novo: nada. Ficar na cama até a noite chegar porque me dói o corpo todo, ficar a dormir no sofá com o comando na mão, ignorar o barulho do telemóvel com as mensagens que não caíram na véspera. Esperar que ele fique sem bateria porque não me vou levantar para o desligar. Fazer desaparecer o pequeno-almoço, o almoço e todas as refeições que sejam à luz do dia. Petiscar os salgados da véspera, fechar os olhos e fingir que não vai existir nenhum dia seguinte.

Desejos para o ano novo:
- Que hajam mais dias assim.
- Que não chova nas festas ao ar livre.
- Que as pessoas não abram champanhe sem ver se há pessoas com óculos atrás, já agora, que segurem na rolha.
- Que o pessoal não deixe de vir ao blog por causa deste post.
- Que hajam mais dias assim.

Coisas que nos passam pela cabeça nestas alturas:
- Será que aquelas mulheres do circo que fazem de alvo aos que atiram facas têm seguro de cirugia plástica?
- Será que o homem bala não tem problemas a conseguir empréstimos no banco? Deixam-no fazer seguros de vida?!

domingo, dezembro 04, 2005

Mães com SPA

SPA não se entende como sanus per aquam, mas sim como "síndroma pré-avó". No outro dia, estava a fazer sala num consultório e uma miúda estava a fazer queixa à avó porque a mãe dela lhe tinha dito que só lhe dava de comer se ela lhe desse netos! Senti-me solidária.. não sou só eu a sentir que a minha mãe me criou e aturou estes anos todos porque queria um neto (ou mais!). Às vezes fico com a ideia que ela não queria realmente ter filhos, só netos. Todos os meses lá vem a história dos netos.. Que eu não preciso de me preocupar com eles (até porque, segundo ela, eu dava uma péssima mãe), que ela faz tudo e até já tem o trajecto até ao parque infantil delineado! Sim.. "só" tenho que passar pelo trabalho de ter os netos dela. Sim, "só"! É que não custa nada andar nove meses tipo bola de berlim sem conseguir andar muito tempo de pé ou mesmo conduzir, cãimbras, pés inchados, corpo deformado, peito inchado.. e aquelas maravilhosas dores de parto?! Estar umas cinco horas a sofrer para caraças por causa de dez minutos de prazer? Como é que uma cabeça que parece uma bola de futebol passa num buraco mais pequeno que um limão anão sem causar estragos idênticos ao que o cometa fez aos dinossauros? (Rebentou tudo à sua passagem..)

Como é que é possível que em milhões de anos de evolução, o parto continue a aterrorizar qualquer mente feminina? E não me venham dizer que o segundo é mais fácil, já experimentaram?!

Pois bem, eu "só" tenho que me submeter a estas coisas e a minha mãe trata da peste. Está claro que algures "só" vou ter que acordar para dar de mamar àquela grafonola, com o botão de volume estragado no máximo, de três em três horas (viva o sono descansado) senão o peito deve entrar em convulsões e explodir se o terror em fraldas ficar sem sede.
O mais giro disto tudo é que a minha mãe acha maravilhosa a ideia de netos, mas a existência de um pai para eles já é outra história! Se eu for passar um fim-de-semana algures com o meu namorado é um filme de terror e um inquérito fenomenal. Suponho que a peste deva nascer de geração espontânea. Ou talvez em vez de um pai lhe possa arranjar uma mãe e recorrer à inseminação artificial? Será que a minha mãe tem alguma coisa contra isso? Assim não tem que conhecer/aguentar com o pai. Ou talvez ser mãe solteira "à la" Ágata?!

Mãe, lamento mas não quero ser mãe. Desculpa lá qualquer coisinha!

sábado, novembro 26, 2005

Voar daqui

Às vezes, as coisas que me rodeiam cansam-me. Tanta gente, tanto barulho, tanta coisa para fazer! É realmente incrível como ainda conseguimos acordar e deitar bem dispostos ou só mesmo acordar com vontade de viver o dia seguinte (nem que seja em contagem decrescente para sexta feira). Parece que fazemos milagres com as vinte e quatro horas que temos porque conseguimos fazer (quase) tudo a que nos propomos e ainda "sobra" tempo para dormir. Às vezes até sobra tempo para ficar na cama, de manhã, a ouvir a chuva a cair e a sorrir por não ter que sair naquele dia às oito da manhã. Não ter que sentir o frio a cortar a minha pele e estar ali quentinha enrolada nos lençóis. Estas pequeninas coisas como acordar e ficar na cama, um pacotinho quente de castanhas assadas, Sugos com sabor a limão, um rebuçado floco de neve, dançar sozinha ao som de uma música que já não ouvia há imenso tempo.. são todas especiais para mim. Ver-te sorrir.. ver os teus olhos transparentes e deixar os meus lábios mergulharem nos teus. Consegues o impensável, os meus olhos fecham à medida que o som da rua se vai tornando mais distante, as pessoas à nossa volta vão desaparecendo, os problemas esfumam-se! Estou noutro lugar qualquer só teu e meu, o tempo pára.

Quando abro os olhos, estou de volta à realidade. Há barulho, há coisas que fazer, há o tempo que passa, corre e foge por entre os meus dedos. Lembro-me de ter estado num estado de graça apenas há cinco segundos atrás. Nunca te vás embora.. preciso desta sensação que me provocas sempre que estás perto de mim, preciso de viajar até áquele sítio só nosso de vez em quando. De vez em quando, preciso de voar daqui..

terça-feira, novembro 15, 2005

Branco e Negro

Não te percebo nem nunca te hei-de perceber. Mas isso é uma coisa que gosto, se te conhecesse de trás para a frente, aborrecia-me. A verdade é que não tens nada de monótono, mas várias vezes me desiludes. É como se, a cada seis horas, estivesse com uma pessoa diferente. Tanto és atencioso e carinhoso, como distante e fechado em ti. Não te compreendo tantas vezes que penso que te ias embora se to confessasse. Sinto-me atraída porque és diferente, porque não te entendo. Porque és lindo e horrível. Porque me fazes chorar e rir mais do que qualquer outra pessoa. Porque não sou indiferente à tua presença, porque não confias em mim, por tudo pelo que te deixei ir, por tudo pelo que queria que voltasses e por tudo pelo que não te aceitei de volta. Estavas a mudar-me e eu não gostei da transformação. Quando me apercebi, não estava a tornar-me no que eu queria e tu nem deste conta. Eras tão fechado em ti como devoto a mim, sempre de extremos. Lembro-me de fazermos um daqueles testes online e tu seres um mago negro e eu uma maga branca.. é incrível como algumas parvoíces roçam a realidade.

Tenho saudades de me sentar no teu colo e estar só assim, sem palavras (eu era genuinamente feliz nestas alturas, sabias?). Tenho saudades de me fazeres rir onde quer que seja (atraindo público ou não), dos teus poemas, do teu cheiro, do teu cabelo revolto. Não tenho saudades de me deixares de falar durante dias por leres nas entrelinhas algo que eu nunca disse, por achares que me viste onde eu não estava, por tudo que acreditas que não podes ser e pelo que acreditaste que eu podia ser.

Às vezes pergunto-me como seria agora. Teria dado a volta por cima e seria feliz contigo? Será que te ia mudar? Acho que nunca me perdoaria se tu mudasses. És lindo e eu tenho medo que cresças e deixes de o ser. Mas também és um desastre, demasiado mau para ser verdade. Se te entendesse, perdia-me a mim. Desculpa.

segunda-feira, novembro 07, 2005

Aeroporto

Sempre que estou no aeroporto, fico a observar as pessoas. Não consigo evitar olhar para tudo o que se passa como se o tempo parasse para mim e o meu leitor de mp3 me oferecesse a banda sonora do filme que se desenrola diante dos meus olhos. Até podia estar farta de aeroportos, mas não estou. Estou farta de voar, isso sim. Continuo a adorar a descolagem e a aterragem, mas o resto é sempre tudo igual, podia passar-se em qualquer lado e o cheiro do catering põe-me logo de dieta.

Não sei porque gosto de aeroportos. Talvez pelas sensações diferentes, pessoas diferentes, línguas diferentes. Caras de aventura, caras de saudade, caras de felicidade, caras de tristeza, caras de monotonia (acompanhadas de uma pasta de executivo). Montras de souvenirs. Abraços sentidos, bagagem, seguranças, hospedeiras, filas de check-in, écrans com informação sobre os vôos, buliço de conversas cruzadas e telemóveis, revistas e jornais estrangeiros, avisos em voz alta em várias línguas igualmente incompreensíveis.. fotografias de despedida. As despedidas.. não desgosto delas, fica uma sensação de "até qualquer dia (espero eu)". Ninguém aqui se despede com indiferença, mas sim como namorados que vão ficar alguns dias sem se ver e que se olham como se nunca mais se fossem encontrar.

A minha banda sonora mudou para Leaving New York dos REM. Na "mouche"! É por isto que não há discussões nas despedidas. É capaz de ser mais difícil para quem fica do que para quem vira costas direito à porta de embarque, mas em ambos os casos fica uma nítida sensação de abandono. Eu sinto sempre que abandono qualquer coisa que já faz parte do que sou. Não faço ideia das divisões que tenho dentro de mim, sou de tanto lado que deixei de pertencer onde quer que seja. Tenho sempre saudades das pessoas, dos lugares e das paisagens, do cheiro, do vento, do ar de outros locais onde não estou. Não sei porquê. Talvez um dia volte a sentir que pertenço a algum lado, que a minha "casa" está num sítio especial. Não sei quem dizia que é preciso cortar as raízes antes de voar. É verdade, eu voei.

quarta-feira, outubro 26, 2005

A teoria do Wally e do Ezequiel*

"..10 000 spoons when all you need is a knife.."
Suponho que esta frase da Alanis Morissette resume bastante bem aquela tendêcia do destino para gozar com a nossa paciência todos os dias. Se perdemos um relógio, o que é que acontece? Ficamos uma boa meia hora de rabo para o ar a virar a casa do avesso e não encontramos o sítio onde o raio do relógio se escondeu. A busca vai-se revelando cada vez mais infrutífera e o desespero aumenta quando começamos a procurar nos mesmos locais mais do que uma vez. Passados dois dias, perdemos mais qualquer coisa. Começamos à procura, mas eis que não é à toa! Por alguma manobra demoníaca inconsciente, começamos por procurar exactamente no único sítio onde não tínhamos procurado da última vez. É claro que continuamos com o último objecto perdido durante os próximos tempos, mas encontramos (à primeira!) o relógio que encabeçava a lista dos mais procurados lá de casa.

Eu confesso que sou daquelas pessoas tristes que passa a vida a telefonar para o próprio telemóvel a partir do telefone fixo. Não tenho ADSL e, como tal, acho que o meu telefone fixo só tem razão de existir porque eu nunca sei do meu telemóvel. Depois lá vou eu a seguir o toque para ver se encontro o telemóvel (que acha que é o Wally) antes que a chamada entre no Voice Mail e eu pague alguma coisa desnecessariamente. Isto é o meu dia-a-dia no que toca a telecomunicações móveis. No entanto, a coisa que me surpreende mais nestas "coincidências" bizarras nem é a quantidade de coisas que perco e o mau timing quando as encontro, é sim o raio da razão pela qual o telemóvel toca! Já não basta tocar quando estou na casa-de-banho, quando estou a tomar banho ou sempre que não posso atender (e, regra geral, oiço os meus pais a mandar vir e a perguntar para que é que eu quero o telemóvel se nunca atendo), como ainda parece que telefona sempre a pessoa "errada" quando eu atendo. Acho que toda a população portuguesa que tem o meu número, menos o Ezequiel, se lembra de me telefonar/mandar toque/mandar sms exactamente no dia em que quero que o Ezequiel se lembre da minha existência e ele está incontactável. Fico contente a cada toque do bicho, apenas para desmoralizar quando leio o nome no visor. A verdade é que já sei que vou passar a semana seguinte a esbarrar com o Ezequiel.

É claro que também posso falar daquele comboio que chega sempre atrasado e nos deixa à seca, excepto naqueles dias em que nos atrasamos e ele resolve sair a horas. Ou naquele dia em que não levamos guarda-chuva porque "só vamos ali" e chove torrencialmente durante os 100 metros que nos separam da porta do carro. Claro está, assim que nos abrigamos (com o novo penteado "esparguete" e roupa encharcada a condizer), pára automaticamente de chover e cair granizo. Mas será que as pessoas, o tempo e os telemóveis fazem de propósito?.. Quem quer que esteja a "comandar" isto lá de cima, tem um sentido de humor muito apurado! Ai tem, tem!..

*(vénia ao W.)