sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Pensar Alto

- Não podes substituir uma pessoa.
- Ai isso é que posso!
- Não, nunca vais substituir ninguém. Não se substitui o que uma pessoa disse num dado momento. Só ela te poderia ter dito aquilo e significar o que significou para ti. Podes ter alguém ou alguma coisa que faça o mesmo, mas não substitui... encaixa-se no mesmo espaço. A marca fica lá.
- Passaste muito tempo a pensar nisso, não?
- Na volta... - piscou-me o olho.
- Casa-te comigo!
- Eu já tenho o amor da minha vida, lembras-te?
- Achas mesmo que existe tal coisa na nossa idade?
- A minha vida é curta, mas não deixo de ter o amor dos meus vinte e seis anos, aos oitenta logo se verá.
- Vinte e seis... maneira subtil de dizer que estás quase a fazer anos.
- Estava com esperança que reparasses nisso.
- Não lhe vais dizer que estou interessado em ti?
- Não.
- Porquê?
- Não é importante.
- Eu não sou importante?!
- Estás a gozar comigo.
- Porque é que dizes isso?
- Não estás aterrorizado com a minha possível resposta, tens cara de divertimento.
- Mas podia ser a sério!
- Em parte.
- Hum?
- Não deixas de estar interessado na minha reacção.
- Tens a certeza que não o queres deixar?
- Já te disse que ele era o amor da minha vida, está marcado em mim. Não como bonita caligrafia num livro branco, mas marcado com um ferro quente! Os momentos mais intensos, os maus e os bons, as dores, as alegrias, está tudo marcado para sempre...
- O que estarias a fazer com ele agora?
- A pensar que tenho que trocar a mola do sofá.
- Isso é de uma realidade cortante...
- É por isso que estou contigo hoje.
- Achas que ele te pode deixar?
- Hoje sei que não, amanhã não sei.
- Não te preocupa?
- Um dia de cada vez torna-me a vida mais fácil de viver. Saber que agora está comigo basta-me. Já estou marcada, já te disse. Mesmo que se vá embora, nunca vai sair do que vivi até hoje, temos os destinos atados com um nó e as pontas estão soltas.
- Começo a gostar do tipo sem o conhecer, mas ele tem sorte... ai esse sorriso!!
...
- Apetece-me dar um mergulho.
- Com este frio?!
- Eu não pedi que me acompanhasses!
- Mas eu não posso ficar aqui a olhar enquanto apanhas uma pneumonia!!

Corri pela espuma já sem roupa e senti o frio gelado a cortar-me a pele psicológica. Espero que nunca ninguém a leve de mim...

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Fairy Tale VI: O Pedro (parte III)

(...)
Ao fim de mês e meio, decidi que se ia morrer deprimida, ao menos ia sair das muralhas por uma vez que fosse. Cheguei decidida à sala do trono e informei o meu pai que ia dar um passeio fora das muralhas do castelo. Penso que ele até ia objectar porque ficou parado de boca aberta e com o dedo indicador da mão direita levantado, mas acabou por assentir com um gesto da cabeça, talvez por me ver simplesmente de pé. De qualquer modo, mandou preparar a carruagem mais segura que tínhamos e ainda enviou um corpo de 10 guardas. Pedi ao cocheiro, o sr Zé, para me levar a ver o mar... queria ver a zona mais bonita do reino com vista para o mar.

O mar era mais longe do que eu pensava. Meti a cabeça de fora da carruagem assim que saímos das muralhas e fui admirando o reino, os transeuntes e o mau cheiro. Ao fim de algum tempo, resignei-me a tapar o nariz e a respirar pela boca. Assim que saímos da zona populada, o mau cheiro dissipou-se, mas era tudo muito à base de árvores e pedras, chateei-me rapidamente. O tempo arrastava-se na curiosidade em conhecer o mar e a falta de alguém com quem falar, a Clara recusava-se a sair.

A carruagem eventualmente parou e eu saí, um bocado a medo. Fiquei arrepiada quando vi o mar pela primeira vez. Era lindíssimo! Cheirava melhor do que qualquer perfume que já me tinham vendido. Aproximei-me devagar, até deixar de existir terra debaixo dos meus sapatos, apenas areia onde me enterrei ligeiramente. Vi as ondas rebentarem e aos poucos fui perdendo o medo da espuma branca que ia e vinha. Fiquei hipnotizada durante bastante tempo naquela visão, enquanto os caracóis da peruca se desenrolavam ao vento. Só acordei quando reparei que o som das ondas me estava a dar vontade de usar a latrina, o mais rapidamente possível. Como era uma princesa, achei que podia evitar aliviar-me atrás de um arbusto e dirigi-me a uma cabana simpática que estava ali por perto. É curioso pensar que a cabana tinha uma vista melhor do que todas as janelas do castelo. Conforme me ia aproximando, reparei que havia alguém sentado à porta da cabana, estava virado para o mar e, portanto, de costas para mim. Corri (dentro dos possíveis) até à pessoa e, conforme ela me ouviu chegar (ou talvez a chiadeira dos dez guardas que vinham comigo), levantou-se num pulo e virou-se para nós. Assim que me viu, andou dois passos para trás e eu fiquei de boca aberta depois de um dramático “oh!”. Passados uns segundos de hesitação, e passada a fúria de o saber ali no reino e nunca ter tentado contactar-me, fiquei tão feliz que tentei chegar-me perto dele, mas ele insistia em afastar-se mais a cada passo que eu dava na direcção dele. Sem outro remédio, gritei ligeiramente:

- O que é que se passa? Não se lembra de mim?! Sou a princesa!
- Claro que lembro!... Mas o que faz aqui? - gritou ele.
- Vim à procura do mar!
- Do mar?!
- O que disse?... Temos umas coisinhas por esclarecer, não?! - Enchi os pulmões de ar - Mas primeiro que tudo, posso usar a latrina da cabana? É assim urgente, obrigada!

Passados uns momentos de confusão, ele sorriu (já me tinha esquecido que era um sorriso tão grande!) e assentiu. Quando eu voltei, passámos o resto da tarde a conversar. Eu estava deveras impressionada com o mar, na verdade, até me apetecia descalçar e sentir a areia molhada nos pés. Aprendi que o nome dele era Ricardo e que não descendia de nenhuma família real, aliás, só tinha ido ao palácio porque tinha um amigo qualquer, ele sim nobre, que gostava de jogar e perdeu o convite para o baile ao jogo. Eu não dizia praticamente nada porque face às aventuras dele, a minha vidinha de princesa era um tédio de morte. Mas gostava tanto de estar com ele que voltava dia após dia e aprendia imensas coisas novas: aprendi a descascar maçãs, a usar uma fisga, a pescar com uma linha e que não existem dragões (mas eu já suspeitava desta!). Ao fim de alguns meses e sem qualquer pedido de casamento da parte do Ricardo, enchi-me de coragem e disse ao meu pai que já tinha escolhido um marido para mim, mas que não era de sangue azul. Curiosamente, o meu pai ficou contente (suponho que não era o segredo melhor guardado do castelo), mas ao mesmo tempo, não gostou da ideia de ter que nomear outra pessoa para seu sucessor. Depois de lhe prometer que continuava a viver no castelo com ele, fui pedir a mão do Ricardo. Ele ficou bastante chocado com minha decisão, mas quando a voz dele voltou, deu-me um decidido “sim”! No entanto, tinha mais um pedido a fazer-lhe: queria uma festa grande e convidar muita gente dos vários reinos, assim uma despedida da realeza em grande!

A Clara fez um esforço enorme para se mostrar feliz por mim, e até vibrou com o meu vestido de noiva que toda a gente já conhecia... Os conselheiros do reino chegaram à decisão unânime de que eu estava maluquinha de todo, mas a cerimónia começou como estava prevista com a chegada do Ricardo muito elegante, até tinha perdido a barriga para o evento e tudo! Mas eu estava algo inquieta pela falta de um convidado em particular... Acabou por chegar, atrasadíssimo, mas chegou. Entrou no final da cerimónia e com estrondo tal que toda a gente se virou para trás. O Ricardo segurou-me a mão com medo que fosse algum outro pretendente e eu retribuí com um grande sorriso. Quando a Clara olhou para trás e o viu, não houve decência que ficasse de pé! Arregaçou o vestido, correu a nave toda em direcção à saída e saltou para os braços do sr malmequer como se não houvesse amanhã. O beijo que se seguiu valeu-lhes uma expulsão da cerimónia, mas teve direito a muitos risos cúmplices. Coitado do Pedro, esquecer a Clara é uma tarefa impossível, eu própria não fui capaz durante o planeamento do meu casamento.

O sr malmequer ficou connosco durante alguns dias até confessar que tinha renunciado ao trono, os pais não aceitavam aquele casamento. A única pessoa que estava do lado dele era a tal tia que tínhamos em comum e que o tinha acompanhado até ali. O sr malmequer crescia a olhos vistos na minha consideração, já a tia dele crescia aos olhos do meu pai que se desdobrava em atenções para com a senhora!

Ao fim de alguns dias de discussão com o meu pai, chegámos os dois a um acordo importante. A Clara seria reconhecida como legítima herdeira ao trono, e como tal, tinha direito ao trono que eu tinha renunciado. Como o Pedro era de sangue azul e tinha sido criado para ser rei, podia governar o reino melhor do que qualquer um de nós, além do meu pai. Quando demos as novidades à Clara e ao Pedro, eles choraram durante quase uma hora e, no meio de tantos soluços, não percebi nada do que eles disseram.

Passados alguns anos, posso dizer que o castelo está mais cheio de vida do que nunca! As três alas do castelo, que antigamente estavam vazias, fervilham de actividade. Eu fiquei numa, a Clara na maior... e o meu pai e a sua nova esposa na outra! É fenomenal ver o meu pai a brincar com os netos e as boas relações entre esta família ampliada de forma tão rápida. Toda a gente ajuda nos assuntos governamentais, mas a palavra final é sempre a do meu pai, seguida da do Pedro e da Clara. Aos fins-de-semana saímos sempre das muralhas, normalmente para um piquenique à beira-mar, onde nos descalçamos e corremos a tarde toda.

Arrisco-me a dizer que vivemos assim... felizes para sempre.

sábado, janeiro 19, 2008

Fairy Tale V: O Pedro (parte II)

(....)
Já era de manhã quando tudo acabou. As pessoas espalharam-se pela relva do jardim, exaustas. Eu tinha adormecido de cansaço, a chorar pela Clara, encostada ao meu pai. Ele cumpria a função de rei e de pai, continuava a comandar tudo através de gestos e sussurros para não me acordar. Acordei apenas quando ele me chamou em voz alta: "filha, acorda!". Esfreguei os olhos que ainda ardiam e olhei em volta, era a Clara! Vinha com uma manga descosida, o cabelo solto molhado, a maquilhagem desfeita, mas belíssima como sempre. A minha irmã.. viva!! Agarrei-me de tal forma a ela, que desconfio que podia ter-lhe deslocado uma costela ou outra.

- Calma, calma, está tudo bem!
- Estava tão preocupada contigo!
- O teu malmequer vestido de pássaro salvou-me... não sei como é que ele me encontrou, só acordei quando ele, não muito gentilmente, me despejou um balde de água pela cabeça abaixo.
- Isso explica o cabelo molhado! Mal posso esperar para lhe agradecer. Sabes onde ele está?
- Oh, já foi embora.
- Embora? Para onde? Mas ele nem pediu a minha mão em casamento!
- Não? Pensava que era isso que ele tinha vindo cá fazer.
- Também eu... então e o teu par verde?
- Ai, nem digas nada! Que homem! Olha, declarou-se-me umas dez vezes durante a noite... estou farta de o procurar e não o encontro. Ele tinha ido buscar umas bebidas quando o lustre caiu... que visão horrível, espero que não lhe tenha acontecido nada!
- Isso és tu preocupada com um homem pela primeira vez?
- Ora... não posso?
- Claro que sim! Mas conta-me mais coisas!
- Que posso eu contar? A noite não deu para nada... além disso, acho que ele não percebeu bem quem eu era.
- O meu par também me pareceu um bocadinho baralhado esta noite, deviam estar a adivinhar o que estava para vir. Mas ora, pode ser o começo de um grande amor na mesma!
- Amor de verdade num baile a fingir?
- É um começo?....
- És uma romântica incorrigível!
- Olha! O teu sr verde está ali!! - E apontei, como me dizem sempre para não fazer.

A Clara ia ficando pálida conforme o sr verde se aproximava dela, nunca a tinha visto assim. A pena do chapéu dele estava queimada e ainda deitava um fiozinho de fumo que me distraía. Ele dirigiu-se directamente à Clara:

- Princesa, estou tão feliz de a ver sã e salva!

Olhámos de lado uma para a outra. Eu não sabia bem o que dizer, mas face a tanta confusão para uma noite só, achei que era melhor esclarecê-lo.

- A princesa sou eu, ela é a Clara – suponho que ele só deu pela minha existência nesse momento.
- Clara? Mas então... não entendo o que se passou?
- Eu estava mascarada de realeza... - suspirou a Clara numa voz apagada.
- Ai que terrível engano!
- Terrível?... - intrometi-me.
- Pois, agora é que reparo que este vestido não é prateado e... sabe, eu sou daltónico e tudo isto das cores me confunde muito!
- Prateado?!... Não me diga que você é... - a minha cara abria-se num terror de antecipação.
- ... Pedro Miguel Ramos António Joaquim, encantado por conhecê-la... princesa.

Eu e a Clara olhámos uma para a outra e desatámo-nos a rir. Demorámos vários minutos até recobrar a compostura e começarmos a chorar. Acho que foi demasiada coisa para tão pouco tempo, o fogo, o sabermo-nos vivas, as descobertas de amores trocados.... acabámos a soluçar no ombro uma da outra, enquanto o verdadeiro sr malmequer nos olhava visivelmente chocado e sem saber se devia fugir enquanto era tempo.

- Eu a sonhar com o casamento... e ele não quer nada comigo, é contigo! - Fungava a Clara.
- E eu que achava que este era o outro e o outro tinha uns olhos tão bonitos!...
- Mas eu é que fico sem este!
- E eu quero o outro!!! - E recomeçámos a chorar que nem umas verdadeiras madalenas.
- Hum, Hum – Aclarou a voz - Desculpem interrompê-las minhas senhoras, mas isto é de facto um erro lamentável. Clara, lamento imenso... a noite foi, até mesmo depois do lustre cair e enquanto o erro se manteve, memorável... A melhor noite da minha vida, de facto! A senhora é lindíssima, mas eu não posso casar com uma senhora que não é da realeza, penso que entende. Lamento profundamente. Quanto a si, tenho a certeza que é boa pessoa, mas não posso manter a minha promessa e pedir-lhe a mão em casamento. Não depois de conhecer a senhora Clara. Estou um pouco abalado com tudo isto...
- Claro, compreendo perfeitamente. Deixo-vos agora porque tenho que ir falar com o meu pai... - apressei-me a dizer entre várias fungadelas e afastei-me à procura do “outro”, enquanto deixava os dois a sós por alguns momentos.

O sr malmequer ainda abraçou a chorosa Clara cujo choro tinha aumentado de volume, mas não vi muito mais porque o meu coraçãozinho também ameaçava descolar-se a qualquer momento. O castelo já estava praticamente vazio (de convidados, claro) e eu não sabia nada do passarito de olhos grandes cinzentos. Saber que ele não era meu pretendente tinha sido um golpe duro, e se ele era casado? Ou um espião de outro reino, agora cheio de informações? E como é que é possível que eu nunca o tenha tratado pelo nome, nem me apercebido da razão pela qual ele não percebia nada do que eu dizia... No entanto, o que me afligia mais era não fazer ideia de como o podia encontrar. Até a Cinderela tinha tido a decência de deixar um sapato! Vagueei pelos jardins do palácio e fiz a descrição do sr pássaro a toda a gente que encontrei, alguns mais do que uma vez, e ninguém fazia ideia de quem poderia ser.

Nas semanas que se seguiram, eu e a Clara parecíamos umas almas penadas. Não saíamos, não ríamos, mal falávamos... ficávamos deitadas no quarto a olhar para o tecto e a suspirar pela má sorte. Nem as cerejas que o meu pai mandava que alguém deixasse no meu quarto me abriam o apetite.

(continua)

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Fairy Tale IV: O Pedro (parte I)

O meu último pretendente chegou na altura das festas grandes. Tínhamos imensos convidados no palácio e era a altura da minha festa preferida: o baile de máscaras. Era a festa que eu gostava mais porque o meu pai deixava de andar de olho em mim (até porque não sabia onde eu andava no meio de tanta gente) e a Clara usava os meus vestidos e pavoneava-se pela sala a convencer toda a gente que era uma imperatriz de um reino longínquo. Os homens então acreditavam religiosamente no que ela quisesse, acho que se ela dissesse que era uma rã transformada em princesa, eles também acreditavam... é por isto que gostamos deles, não é?

Mas voltando um pouco atrás, comecei a trocar cartas com o Pedro uns meses antes do baile de máscaras. Ele escreveu a contar-me que uma tia com quem temos conhecimentos em comum lhe tinha falado em mim e que estava muito interessado em conhecer-me. A nota interessante deste pretendente é que me enviava sempre uma flor cuidadosamente espalmada em todas as cartas. Achei que valia a pena conhecer o "sr malmequer", tal como a Clara o tinha baptizado. Combinámos que ele viria vestido de Robin dos Bosques (apesar de eu não fazer ideia do que isso seria exactamente) e eu disse que ia usar um vestido cor de prata e uma máscara cor-de-rosa com duas penas prateadas do lado direito.

A noite chegou por fim e eu mal conseguia respirar da excitação e do facto de ter o corpete mais apertado do que o habitual para um baile. Fiquei perto da entrada a acenar para todos os homens que entravam e houve um deles que não me causou qualquer dúvida, entrou vestido com um fato castanho, com uma mancha vermelha no peito, e umas mais claras a compor o resto do fato. Não sei porquê, "Robin" assentava-lhe de tal modo que eu não tive qualquer dúvida que estava ali o sr malmequer. Fiz sinal à Clara e fui atrás do meu pretendente.

- Muito bem vindo!
- Boa noite, minha senhora.
- Já me reconheceu? Máscara cor-de-rosa e duas penas de lado!
- Hum... por acaso não! Pensava que era essa a função da máscara...
- Ah e tem sentido de humor! Que bom! Sou eu, a princesa!
- A... princesa? Pensava que a princesa era aquela dama morena ali à entrada.
- Não, essa é a Clara! E sim, está a fazer-se passar por uma dama de sangue azul... e então, vamos dançar?
- Tem a certeza que quer dançar?.... Comigo?
- Claro que sim! Aposto que tem muita coisa para me contar, não é assim?
- Se a senhora assim o diz!...

E lá fui eu rodopiar nos braços do meu passarito que afinal era mais gordinho do que eu tinha imaginado sob a forma “malmequer”. Foi com grande alegria que reparei que ele não tinha qualquer problema na fala, nem atraía demasiados olhares femininos ou masculinos, mas parecia um bocado distraído porque não se lembrava de nenhum dos assuntos que tínhamos trocado nas cartas. Entretanto, a Clara andava a dançar alegremente com um senhor vestido de um modo peculiar, verde esfarrapado dos pés à cabeça e com um barrete cor-de-laranja com uma pena no topo. Achei que eles faziam um casal particularmente bonito, pareciam proporcionais um ao outro. E, o que me espantou mais, foi a maneira como a Clara o olhava. Era a noite de sorte para o cavalheiro de verde! Ao fim de algumas danças bem divertidas, o meu par perguntou-me se queria passear um pouco pelo jardim, ao que eu reagi com um entusiástico sim. É claro que sair do baile e da confusão para dar toda a minha atenção ao sr. Pedro era agradável! Mas tinha que manter a minha distância de dama respeitável, claro. Ele tirou a máscara da cara e eu fiquei de olhos arregalados, tinha à minha frente um homem mais bonito do que estava à espera. É certo que tinha uma barriguinha e que me tinha pisado mais de três vezes durante a dança, mas tinha imensas coisas giras para contar, um sorriso grande e uns olhos acinzentados enormes. Pareciam ser da cor da lua cheia e da minha máscara. Pegou-me na mão durante alguns minutos e eu senti o sangue a subir-me à cara, aposto que estava vermelha que nem um tomate. Como é que ele se atrevia a pegar na minha mão sem me pedir em casamento primeiro??

- Acho que é melhor não fazer isso. - E retirei a minha mão da dele.
- Porquê?
- Porque ainda não me declarou as suas intenções, o que o trouxe cá, tal como tínhamos combinado.
- O que me trouxe cá?.... Como assim?
- Ora, então o que é que o senhor veio fazer a este reino?
- O que é que eu vim cá fazer?... Mas ó minha senhora, eu já cá...

Nesse instante ouviu-se um certo estrondo na sala de baile e corremos os dois para lá. Havia um clarão enorme, uma confusão fenomenal e as pessoas gritavam “FOGO!” enquanto fugiam. Pareceu-me que o grande lustre do salão tinha caído no chão com um estrondo digno de um deus muito irado (pensando nisto agora, acho que a queda de um grande lustre era capaz de ser um grande momento numa peça de teatro!).

- Princesa, é melhor desviar-se que ainda é atropelada por esta gente!
- Não, a Clara está lá dentro! Tenho que ir lá!
- A Clara? Mas não pode! Repare bem na confusão que para ali vai!

Eu tentei entrar mas ele segurou-me com força. Apesar da confusão, senti-me protegida e perguntei-me se segurar numa mão era suficiente para pedido de casamento, o que era equivalente a ter alguém a segurar-nos de modo a impedir qualquer movimento da nossa parte?! Aposto que ficava com má fama até ao final da minha vida... uns 20 anos. Ao fim de poucos segundos, o cheiro a fumo, a quantidade de gente a gritar e a fugir causou-me imensa confusão. Comecei a chorar e tentei soltar-me para procurar a Clara.

- Calma, calma! Pronto, eu vou lá buscá-la. É a senhora que estava mascarada de princesa, não era? Eu vou procurá-la, mas fique aqui!
- Eu fico. Despache-se!!
- Só depois de me prometer que não sai daqui a menos que o fogo venha nesta direcção! Prometa-me!
- Prometo, vá lá, está prometido! Ó homem despache-se!!

E lá fiquei eu a roer as unhas e a desejar que ninguém estivesse a olhar para poder roer as dos pés também. As coisas desenrolavam-se lentamente, como se eu pudesse ver a imagem num tempo estendido... as labaredas tentavam fugir pelos vidros estilhaçados, as pessoas gritavam por água e pediam mais baldes, a noite estrelada permanecia impávida por cima das nossas cabeças. Sentia-me à parte de tudo, o som chegava longe e parecia que os meus olhos não detectavam o movimento imediato. Tentava pensar na Clara, ao mesmo tempo que procurava o meu pai na multidão, apesar de ter a certeza que ele estava a salvo. No meio desta realidade sonhada, senti-me abanada quando ouvi um chamamento que conhecia há anos... Vi-o finalmente e corri para ele: "Pai, pai, pai!!!". Fiquei ali a abraçá-lo enquanto toda a gente acorria com baldes, a gritar ordens e num esforço conjunto para apagar o imenso fogo que projectava as nossas silhuetas tremidas num laranja vivo.

(continua)

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Fairy Tale III: o João

O João chegou com o cheiro a sal. O meu pai nunca aceitou nenhum dos meus vários pedidos para ver o mar. Dizia o que o diabo se escondia nas profundezas dos oceanos. Eu acho que o diabo não se ia sentir bem no mar, imagino-o sempre de tridente em punho e rodeado de fogo. Dentro de água, a modos que fica um pouco apagado, não? A deitar um fiozinho de fumo e a cheirar a porco queimado?... Confesso que nunca entrei nesta discussão com o meu pai, se o diabo vive na água tudo bem, eu também não gosto muito de tomar banho.

Mas voltando ao sal, chegada dos heróis do novo mundo era sempre um grande reboliço cá no reino, primeiro porque era raro voltarem e depois porque vinha o João Carlos Figueira de Sebastião e Melo na comitiva, o ladrão tornado herói que mais suspiros arrancava às damas. Roubava tudo o que encontrava (incluindo a mulher alheia), até que foi preso e enviado para conquistar terras do novo mundo sob forma de perdão. Tornou-se então num herói muito popular e era dos nossos conquistadores melhor sucedidos, literalmente.

Eu estava muito curiosa, não só porque era a princesa e, portanto, ia recebê-lo no castelo e jantar com ele, mas também porque as minhas aias estavam tão delirantes que não paravam de desmaiar porque tinham o corpete demasiado apertado. E eis que foi o delírio total quando ele chegou, finalmente, às portas do castelo. O João era de facto um homem lindíssimo, tinha uma pele dourada como eu nunca tinha visto, era muito alto e musculado, parecia quase do tamanho do cavalo. Acabei por perceber que ele tinha um certo charme por si só, as senhoras (casadas ou não) suspiravam quando ele passava (mesmo a vários metros) e os respectivos maridos ou interessados faziam cara feia e rosnavam ameaças, mesmo quando ele não dizia nada. Na minha cabeça soava um intermitente “ena, uau, ena”.

Depois de nos sentarmos à mesa, entendi que o sr Melo não tinha uma linguagem lá muito desenvolvida. Era incapaz de manter uma conversa minimamente decente, mas tinha histórias fabulosas para contar. Fiquei com imensa vontade de conhecer o mundo para além mar, quer dizer, para começar talvez fosse melhor ver primeiro o mar e as suas tempestades. No final do jantar, lá tentei aproximar-me dele, apesar de ter que furar caminho por entre as minhas próprias aias (e sabe Deus como isso é difícil com estas saias!). Lá consegui chegar perto do homem e quase me esqueci do que tinha para dizer, ele era mesmo bonito! Depois de reunida muita concentração, disse-lhe que gostava muito que ele me acompanhasse num passeio no dia seguinte. Ele acenou que sim, mas que eu tinha que levar as minhas lindas aias para nos acompanharem! Houve um suspiro colectivo tremendamente alto e, desta vez, fui só eu que me senti ofendida.

Na manhã seguinte, estava super entusiasmada com a ideia de rever o João, mas sem vontade nenhuma de partilhar a atenção dele com as minhas aias. Ainda por cima, cada uma delas parecia-me particularmente bonita naquele dia. Lá reuni coragem e saí com aquele bando de galinhas até ao pátio. O João chegou com uma hora de atraso, o que ia provocando um ataque de histerismo em grupo. Vinha bastante ofegante e descomposto, mas com um sorriso pronto nos lábios que nos fez arrumar todas e quaisquer perguntas acerca do atraso. Eu tinha a carruagem pronta para o passeio (tinha pensado ir até perto do mar), mas os meus planos foram por água abaixo porque ele insistia que não tínhamos que sair do castelo, que os jardins eram lindos e que ele não os conhecia. Insistiu tanto que lá voltámos para trás, a contragosto.

O passeio até estava a correr bem e, apesar dele repartir a atenção pelo mulherio todo, falava mais vezes comigo. Descobri que ser princesa podia trazer-me a vantagem de ter a atenção de homens deslumbrantes que, de outro modo, nunca olhariam para mim duas vezes. A dado momento, ele perguntou-me se podia falar a sós comigo e afastámo-nos um pouco do grupo suspirante. Eu estava com um certo receio da escolha de palavras dele porque decoro não era sinceramente o forte do João, mas até achei que ele se estava a esforçar durante o passeio.

- Sabe, isto de ser aventureiro é óptimo! Conhecemos imensas coisas, nomeadamente mulheres que é o que mais nos interessa longe de casa, sabe?
- Hum... - acenei ligeiramente com a cabeça sem saber muito bem o que devia dizer.
- As pessoas respeitam-nos! Mas também há aquela altura da vida em que um homem tem que assentar, percebe? E eu gostava de assentar o mais rapidamente possível! E de preferência com uma...
- Uma...?

Não tive tempo para ouvir o resto do que ele queria dizer porque entrou um homem esbaforido, a correr na nossa direcção, e trazia um machado com ele. Assim que o João o viu, desatou a fugir. Eu fiquei parada, sem saber o que fazer e só quando ouvi: “afaste-se princesa! Anda cá meu sacana!! Agora já não tem piada meteres-te com as mulheres dos outros, não é??” é que entendi o que se passava e desatei a correr atrás do homem a pedir-lhe que se acalmasse em nome do rei. Atrás de nós seguiam mais alguns homens que se tinham juntado ao coro de indignados e que eram, por sua vez, seguidos pelas minhas aias chorosas e a gritar alto para não fazerem mal ao sr. João. Não sei se consigo explicar a confusão que se seguiu, mas a Clara disse-me que estava a estender roupa e que viu o João a correr como se a vida dele dependesse disso (e realmente dependia) e uma procissão afogueada atrás dele. O grupo de homens vociferava: “anda cá meu traste!”, “ai se não fossem as senhoras aqui!”, “agora já não te chegas perto, não é?”, “pára de correr!!”, “eu já te mostro o que é ser homem!!”, tinham as caras bem vermelhas de cólera, mas também do esforço da maratona. Um pouco mais atrás, o grupo de mulheres gritava chorosamente por piedade, perdão e outras coisas: "se calhar são vocês que não dão conta do recado!", "faz-me um filho!", "deixem lá o homem em paz", "ó Joaquim, perdoa-me!", no intervalo de muita arfadela à custa dos corpetes. Estávamos todos a correr em círculo porque os jardins eram grandes, mas tinham os seus limites e o João tinha literalmente fogo no rabo. Continuámos nisto até que perdemos todos o fôlego, menos o João que tinha mais razões para correr do que nós e que escapou. Acho que este episódio vai ser daquelas histórias que vai “correr” de boca em boca as futuras gerações.

Seguiu-se uma audiência com o meu pai, onde foram contabilizadas cerca de trinta traições, o que eu achei fenomenal porque o João tinha chegado no dia anterior. Alguns homens queriam que o papa lhes concedesse o anulamento do casamento, outros queriam ter o direito a casar de novo com outra mulher, outros queriam simplesmente linchar o João. As mulheres casadas ou prometidas pediam perdão, outras choravam pelo amante fugido e outras tantas fungavam de pena porque ele nunca tinha chegado a tocar-lhes sequer (eu confesso que me sentia mais inclinada para este grupo). A Clara divertia-se à grande com a confusão instalada e o meu pai decidiu, ao saber da existência de 32 bastardos até ao momento, enviar a tropa real atrás do João, apesar dos protestos femininos. Ninguém arredou pé da sala do trono (excepto para usar as latrinas) até que o capitão da guarda real reentrou no castelo e anunciou que o João tinha embarcado numa nau que tinha partido naquela tarde. As notícias trouxeram um misto de reacções, houve suspiros de alívio, asneiras de quem se sentia por vingar e eu confesso que me juntei à Clara, por fim, a rir que nem uma perdida. Jantámos um pouco mais tarde do que o costume e com muitos convidados à mesa. A pouco e pouco fomos bebendo e esquecendo o João e a confusão que ele tinha criado em dois dias.

A parte mais chata é que passados nove meses tivemos dificuldade em encontrar parteiras para atender a todos os pedidos, mas graças ao João (o que lhe valeu outro perdão real), o reino rejuvenesceu e nasceram mais bebés naquele ano do que em todos os que se seguiram.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Fairy Tale II: O Bernardo

Eu e a Clara estávamos extasiadas para conhecer o pretendente Bernardo. Este senhor tinha enviado a carta mais rococó de que há memória neste reino. Uns floreados incríveis que me levaram três dias para identificar apenas a primeira letra da carta. Decidimos logo que eu nunca me poderia casar com alguém chamado Bernardo de Santa Maria Vasconcelos e Melo da Silva Rodrigues e Pereira. No entanto, o meu pai estava maravilhado por saber que o senhor era rico e tinha um caso de gémeos na família, alguma tia em terceiro ou quarto grau. Assim que ele chegou, confesso que me faltou o ar. A minha ideia de alguém com aquele nome era pelo menos uma certa dose de cabelos brancos, uma barriga de gestação de 14 meses e um falar muito afectado, além de sapatos com o bico enrolado, o que está completamente fora de moda!!

Qual o meu espanto (só o meu, a Clara continuou impassível) quando entrou um moço novo no castelo, galante e que se apresentou como sendo o esperado Bernardo. Eu confesso que arregalei os olhos quando vi que não lhe faltava um dente sequer! Tinha olhos da cor dos meus e cabelo louro ligeiramente ondulado. "Uau!" exclamou a minha vozinha interior. Passei a tarde a sorver tudo o que ele dizia, apesar de não perceber metade. Efectivamente tínhamo-nos enganado porque o Bernardo não tinha voz nasalada, mas era "sopinha de massa" e cuspia ligeiramente tudo o que estava num raio de cinco dedos. Eu estava maravilhada e limpava gentilmente as pequenas gotículas de saliva que teimavam em atravessar a mesa que nos separava.

No final da tarde, o meu pai convidou-o a conhecer o jardim comigo e com as minhas aias. Conseguia ouvir as três a suspirar a cada palavra sem "s" pronunciada naquela voz melosa. Quando começava alguma sucessão de palavras "difíceis", cada uma delas levantava ligeiramente o leque e emitia um risinho nervoso e extremamente irritante. Eu fingia que o ouvia porque nem conseguia concentrar-me, tal era a certeza que estava ali a minha alma gémea. A Clara insistia que havia algo de errado e eu dizia-lhe que ela não estava habituada a ter menos atenção que eu! Que este era o meu cavaleiro andante! Já tinha pedido a minha mão em casamento sem olhar para mais nenhuma dama. Eu estava convencida do amor eterno que sentia pelo Bernardo e até andava a praticar o meu nome acabado em "...Silva Rodrigues e Pereira". A única coisa que me preocupava era se no dia do casamento ele tinha que dizer o nome completo virado para mim... o "Santa" e "Silva" causavam-me alguma inquietação já que não podia levar o leque.

A poucos dias da boda e com o castelo em alvoroço, eu dormia cada vez menos com tanta excitação. Quando a costureira me trouxe o vestido de noiva, não fui capaz de o despir e fartei-me de rodopiar pelo quarto a sentir-me a mulher mais bonita do mundo. Durou até a Clara começar com um questionário: "mas ele já tentou agarrar a tua mão?", "beijar-te?", "aproximar-se de ti?". Revi mentalmente os últimos dois meses e realmente não havia qualquer indício de tentativa de proximidade, mas isso era decerto porque ele era muito pudico, apressei-me a explicar. Fiquei a moer nas perguntas da Clara e, como não tinha sono, resolvi dar um passeio nocturno para arejar. Já cá fora, ouvi umas vozes "oh meu amor, que bom é sentir-te novamente!".. chuac... chuac... "Xiu, vem aí alguém!". Eu estava acostumada aos encontros nocturnos e “secretos” da gente do palácio (visto toda a gente parecer ter vida privada menos eu), portanto não liguei. No entanto, conforme me afastava, algo me dizia que não devia ir já para o quarto. Simulei os passos para a saída, descalcei-me e lá voltei eu, vestida de noiva, sem fazer barulho para me esconder atrás de um pilar. Esperei que a conversa retomasse: "Como é possível que não acredites no que sinto depois de tudo o que estou a fazer para estar mais perto de ti?"

Soou um alarme cá dentro... aquela voz era demasiado familiar. Tentei sair do pátio porque já não queria ouvir mais nada, mas parei quando senti que as duas figuras caminhavam na minha direcção. Encolhi-me o mais possível e sustive a respiração. "Sabes que o rei espera descendência rápida, não sabes?", "Sei sim, não me fala noutra coisa... já nem sei que mais fazer para manter a distância dele e da filha dele, qualquer dia fico com a boca seca de tanto cuspir!". Foi a gota de água! "BERNARDO!!!" - gritei a plenos pulmões. A Clara apareceu vinda não sei de onde com uma tocha e metade das pessoas da casa acudiram à varanda para não perder o espectáculo. Aí estava eu, descalça, vestida de noiva, a chorar q nem um bebé e, agora sim, a cuspir a cara do meu ex-noivo com lágrimas, saliva e outros fluidos corporais que saem do nariz: "COMO FOSTE CAPAZ? EU FARIA TUDO POR TI! E... TU TRAIS-ME COM.... O LUÍS????"...

Não vale a pena entrar em detalhes sobre o que se passou em seguida. E assim acabou o meu noivado com o Bernardo, o homem dos perdigotos conscientes.

sábado, janeiro 05, 2008

Fairy Tale, I

Bem, eu sou uma princesa. Talvez não seja exactamente aquilo que se espera de uma princesa, mas o meu pai é rei, eu sou mimada, temos o nosso pequeno reino e nunca me aventurei para lá das muralhas. Até tenho longos cabelos encaracolados e olhos claros. Quer dizer, os longos caracóis pretos que tenho caídos nas costas são, na verdade, uma peruca. Não é que tenha ficado careca desde que nasci, mas tenho que rapar o cabelo por causa dos piolhos. Na verdade adoro a sensação de frescura quando tiro a peruca antes de me deitar, acredito que um dia as princesas vão poder ter cabelo curto. O meu pai diz que eu só vaticino disparates, mas eu cá tenho as minhas ideias.

Porque é que eu nunca saí das muralhas em vinte e três anos? Bem, para começar, o meu pai sempre me disse que fora das muralhas vivem dragões e gigantes. Eu nunca vi nenhum e não conheço ninguém que tenha visto, começo a achar que ele me pregou a peta do século logo a seguir à fada dos dentes, mas pelo sim pelo não... Além disso, nunca me contaram a história de nenhuma princesa de espada em punho a matar dragões, são sempre os cavaleiros, montados em belos cavalos brancos, que fazem as coisas que sujam mais (incluindo à mesa). Mas se os dragões existirem, espero que nenhum deles goste de carne mal passada... Por falar em cavaleiros, do lado de lá também estão homens e confesso que esta coisa toda dos pretendentes me amedronta um bocado, especialmente porque o meu pai já construiu três alas diferentes para a futura descendência e acha que o facto de eu permanecer solteira é pura e simplesmente a hecatombe que se seguiu ao aparecimento do Robin dos Bosques.

É claro que tenho vários pretendentes, não pelos meus lindos olhos mas basicamente porque sou rica e tenho um título de rei para "oferecer", por assim dizer. Ultimamente, com o vai e vem de pretendentes, apercebi-me que estou na curva descendente da nossa esperança média de vida. Não é que me sinta mais velha, mas não tenho muitos mais anos por viver. Os pretendentes é que são sempre mais do mesmo. Nobres que não têm onde cair mortos e se fingem interessadíssimos numa pessoa que nunca viram antes e tão pouco tentaram perceber como reconhecer-me antes de chegar (as minhas actuais três aias têm uma certa colecção de declarações à custa desses senhores e uma ex-aia casou mesmo!). Os que têm dinheiro, vêm à procura de uma bela donzela... e quando me vêem, demoram-se menos do que o conselheiro quando vem pedir fiado para pagar as dívidas de jogo e é corrido pela mulher à vassourada (ela é a cozinheira do castelo e já se sabe, as paredes têm ouvidos).

A minha maior ajuda no campo de despachar os pretendentes, sem que o meu pai tenha tempo de exercer o seu poder paternal, é a Clara. A Clara é uma criadita negra da minha idade que o meu pai encontrou à porta da nossa casa quando eu também era bebé. A minha mãe morreu na noite em que a Clara chegou e o meu pai interpretou isso como um sinal. Eu e a Clara crescemos juntas e, apesar da diferença abismal da minha "educação" e da dela, somos praticamente irmãs. A Clara não é bem negra, tal como o nome indica. Vê-se claramente que alguns dos conquistadores do novo mundo estão a ser também eles conquistados pelos "povos inferiores". Provavelmente a Clara tem mais educação que eu, não sabe tocar piano nem ler, mas sabe comportar-se melhor na presença das visitas, tem coragem para sair do castelo e tem uma pose que não deixa nenhum homem indiferente. Costuma andar com o traje de criada que eu invejo a cada segundo. Vestidos práticos a lembrar-me constantemente do corpete apertado e daquela monstruosa armação de madeira para dar roda à saia. Essa mesmo construção que nos impede de sentar comodamente, ocupar apenas um lugar no balcão do teatro, aproximar-nos de alguém ou até entrar numa porta mais apertada.

Além de ser a minha melhor amiga, a Clara é a mais bela moça dentro das muralhas do castelo e, provavelmente, do reino. Não é que ela fizesse por se mostrar, todos os dias aparecia vestida da mesma maneira, com as duas tranças caídas e aqueles olhos verdes enormes. Ela não andava... dançava no ar! Eu divertia-me a ver a cara do meu pai enquanto os pretendentes se declaravam e nem olhavam para mim, não desviavam o olhar da Clara desde que ela entrava até sair do salão! Os mais ousados pediam-me para aparecer nalgum baile e faziam questão de notar que as nossas criadas também estavam convidadas para ajudar à festa! Enfim, com a ajuda da Clara consegui despachar todos os pretendentes que quis... os muito velhos, os muito gordos, os muito altos ou demasiado baixos, os demasiado chatos ou demasiado inteligentes. Afinal, ler uma página inteira de um livro ainda era tarefa capaz de me ocupar um dia. E felizmente, o meu pai não precisava de me fazer nenhum casamento por conveniência.

Porem, três dos meus vários pretendentes conseguiram desviar-nos da rotina no castelo: o Bernardo, o João e o Pedro. Apareceram assim... por ordem alfabética e tudo!

terça-feira, dezembro 11, 2007

Desalinhamento Planetário

Eu costumo andar feliz, é verdade. Só de passar perto de um braço de água e ver o céu reflectido fico bem disposta. Acho piada à chuva, especialmente quando escorrego mas consigo livrar-me de uma queda aparatosa que me faz rir imenso da minha falta de jeito e excesso de sorte. Mas o Natal... que hei-de dizer do Natal? Não sei, se calhar é das músicas de Natal e do ritmo que lembra neve a cair. E desta vez eu já vi cair neve de verdade! Se calhar é da iluminação, lindíssima nalguns pontos e terríveis noutros. É nestas alturas que me meto no carro (normalmente com companhia familiar) e vou devagarinho percorrendo as aldeias. Ninguém tira os olhos das janelas para ver quem encontra primeiro uma casa com uma grande conta de electricidade e demasiadas cores. Ou mesmo bichos estranhos iluminados no jardim. Adoro ver as iluminações que me deixam de olhos arregalados e são acompanhadas de uma gargalhada. Enfim, o esforço conjunto de tentar tornar as coisas mais bonitas tem e deve ser apreciado, seja qual for o resultado final!

É claro que há gente mal disposta e as coisas más continuam a acontecer. Mas isso é igual em qualquer outra data e não tem interesse em si, ao contrário da música nas ruas em repetição e a deixar-nos malucos com sininhos, pais natais terríveis pendurados nas varandas, iluminações duvidosas em todo o lado... onde é que se encontra isto noutra altura do ano? Na televisão, a publicidade fica carregada de brinquedos e os detergentes passam finalmente para segundo plano. Cá não neva ("se cá nevasse, fazia-se cá ski"! Não consegui resistir...), mas também não está muito agradável para tomar banho no mar. No entanto, há uma felicidade qualquer que é capaz de ser gerada pelos putos. Não sei realmente o que é, mas deixa-me feliz andar por aí nesta altura do ano.

E depois existes tu que me me agradeces por coisas que não têm a ver com papeis, escola, família e coisas do dia-a-dia. Não sei como descrever como é estar contigo, se bem que isso só aconteça por caprichos cósmicos. Quando há desgraças ou sortes estranhas e chocamos finalmente num uníssono "não" em "tens alguma coisa para fazer daqui a 20 minutos?". Fico sempre a pensar quando foi a última vez que corri de madrugada não sei para onde a rir-me sozinha. Nunca dá para planear nada e é tudo em cima do joelho. Mas depois é tudo normalíssimo, tanta coisa contar, tanta risada, tanto disparate. Até já temos rotina na nossa falta de rotina! E despedimo-nos com um beijo fugaz ao frio (o aquecimento ficou lá em cima!), porque nunca sabemos exactamente quando e o que vai acontecer depois e mais vale jogar pelo momento. Mas desta vez é quase Natal e até nos esforçámos por ultrapassar os obstáculos lançados pelo desalinhamento planetário que me dá sempre vontade de rir. É estranho saber que pode funcionar mesmo quando há uma combinação prévia e, depois de correr tudo mal como era esperado, parece magia ter-se realizado. Será do Natal que paira no ar? E se eu fizer um desejo de Natal, tu tentas concretizá-lo?...

terça-feira, dezembro 04, 2007

Uma espécie de Magia

No Verão estávamos a falar de uma cantora (cujo nome não é para aqui chamado) e alguém se saiu com um "Oh, she takes herself very seriously!". Rio-me sempre com esta expressão e tenho pena que em português não haja nada do género. Ninguém diz "ela leva-se demasiado a sério!". Efectivamente, achar que somos importantes e que o que pensamos/fazemos interessa aos outros é capaz de ser uma certa forma de egocentrismo e falta de noção de tudo o que existe completamente independente da nossa existência. No entanto, ter diante de nós a prova que a nossa existência não é nada, que o que quer que tenhamos feito até à data não altera em nada o futuro e que as coisas más podem surgir a qualquer momento, é um murro forte daqueles!

Acho que nem consigo bem imaginar o que é ter saudades de preocupações como "pagam-me mal" ou "queria ter um emprego melhor", como tu sabes. Custa-me imenso pensar que cada minuto é capaz de não se repetir e que tem que ser tudo levado com calma. Custa-me pensar que amanhã de manhã é capaz de estar tudo diferente de hoje à noite e que isso é capaz de destroçar completamente a vontade de ver o que se segue. Dizes que cresceste muito nos últimos dias e eu acredito sinceramente que sim, mas custa-me pensar nisso, porque sempre te achei completamente "crescido"... se é que isto tem lógica!

Curiosamente, é Natal. E apesar de uma data de gente se ter esquecido do que eu acho que é o significado do Natal, tu tiveste uma prova belíssima de que o espírito está bem vivo! Foi excelente aquela reunião de amigos... eu não conhecia mais de metade e não via outros há quase uma década, mas depois de alguma conversa inicial, é como se tivesse acontecido tudo ontem. As gargalhadas eram sentidas, a boa disposição (que era afinal o motivo daquilo tudo) estava patente na tua cara e foi óbvio para todos que o objectivo foi atingido, tu estavas genuinamente feliz. Pois é, uns dizem que contam pelos dedos de uma mão os verdadeiros amigos. Tu nem a somar os dedos das mãos e dos pés ias lá, já viste? Já para não falar dos que não puderam estar presentes, mas fizeram questão de enviar uma mensagem, um bolo, um miminho. Isto sim é espírito de Natal, é lembrar as pessoas de quem gostamos que elas são importantes para nós, mesmo que não sejam para os outros ou que nos esqueçamos de relembrar isso durante o resto do ano. Não é por lhes comprar uma TV, uma máquina para tirar cerveja (piada, ok) e coisas caras em geral que as pessoas se sentem mais acarinhadas. Eu adoro quando vem uma dedicatória num livro, um cartão escrito à mão, uma prenda que alguém se deu ao trabalho de personalizar para mim. Até mesmo uma sms com o meu nome ou que indique que não foi enviada em catadupa. É claro que têm mais valor e são aquelas que se guardam no coração e não só na estante. É por isso que peço postais de Natal escritos à mão como prenda de Natal! (E a todos os que fazem isso religiosamente ano após ano, por favor, não parem! :)

Eu acho que aquela reunião de amigos foi o melhor presente de Natal que te podiam dar, face às circunstâncias e às nossas limitações. A noite teve um toque de magia que aposto que se prolongou até à manhã seguinte (e não estou a falar da hora a que saímos de lá!). Cada um deu o seu tempo, disponibilidade, sorriso, abraço, beijos, conversa, humor... cada um deu o que tem de melhor sem ter que andar nos supermercados ou lojas cheias de gente. Cada um tentou fazer-te sentir melhor pela quantidade de sentimentos bons que podes gerar nas pessoas que se juntaram por ti. E nestas alturas apetece dizer para levantares um bocadito a cabeça, depois das notícias que te fizeram sentir à nora do verdadeiro sentido do que estamos a fazer por cá. Acredita que és importante para, pelo menos, duas dúzias de pessoas e podes levar a sério a quantidade de gente que está a torcer por ti!!

Esta magia "inadvertida" de fazer com que os outros se sintam bem com eles próprios e de os fazer sentir especiais para alguém é que é, para mim, o espírito do Natal. Feliz Natal, Bruno! ;)

terça-feira, novembro 27, 2007

Obrigada!!

Tinha prometido a mim própria que ia escrever um post de agradecimento quando (se) isto tivesse mais de 30 mil visitas, e como acabei de reparar que sim, cá vai um agradecimento aos senhores leitores! :)

Espero que continuem a aparecer por cá e, sem saber muito bem como expressar isto por palavras, obrigada por insistirem em ler as ideias que nos cruzam a mente, muitas vezes motivadas por música... Só podia, é a única forma de nos fazer ouvir, ouvir e voltar a ouvir os mesmos textos sem nos cansarmos.

Obrigada por passarem cá, é uma nota de felicidade que vibra sem parar. Sois os maiores!

sábado, novembro 03, 2007

Nós

Não gosto de usar relógio e nunca me deito antes da madrugada. Acho que só consigo pensar tarde e a más horas, e penso demais quando estou deitada. Rio com imensa facilidade de quase tudo, mas sei que também depende da minha disposição. Vejo MotoGP e sou adepta do Rossi, mas faço uma certa resistência a ver televisão. Adoro andar de bicicleta ou mesmo descalça, conduzir e nadar. Mas correr e entrar num ginásio é o pior a que me podem forçar. O mar faz-me sempre sentir em paz e adoro acordar ao som das ondas sem despertador. Sou muito teimosa, sonho muitas vezes acordada e é difícil acordar-me desse torpor. Não sei porque te digo isto tudo, ao fim de tanto tempo é óbvio que já me conheces de cor. Há imensa gente que lida comigo todos os dias, mas tu compreendes-me (sentes-me?) melhor. A nossa relação tem falta de tudo, inclusivamente de relação. Mas não há como fugir-lhe quando sou traída pelo nervosismo sonante do meu próprio coração. Passo a vida a inventar situações e desculpas para poder ver-te, como se disso dependesse o meu tempo. Depois reclamo tanta vez da falta dele, como quando estou contigo, por exemplo. Estava mesmo a pensar em nós e comecei por falar de mim. Suponho que é mais fácil começar por um do que a dois, pelo fim. Soa a confessionário, mas sinto sempre que não tenho nada inteligente para te dizer. Não sei se alguma vez vais voltar, suponho que não é isso que queres, mas sabes que estaria lá para te receber. Assim como quando sonho acordada, é contigo que sonho invariavelmente. Sei que fui infiel aqui e ali, mas tu também e não me sinto culpada de nos termos provocado mutuamente.

Contigo tudo era fácil, parecia que os problemas não existiam. Acho que voavam ao mesmo tempo com que a roupa ia caindo e os beijos persistiam. Apetece-me dar-te os poucos neurónios que me restam, os braços, as mãos e o que me sustém de pé. Mas sei que não os queres e, apesar de tudo, ter-te para mim é das poucas coisas em que ainda tenho fé. A tua presença incomoda-me quase tanto como me atrai, mas quando apareces sinto-me forçada a desviar o olhar. Penso que sentiria a tua presença numa multidão sem fim, porque o teu corpo faz o meu vibrar. Sinto-me tonta, parva e prometo a mim própria que não volta a acontecer. A sorte é que só me desiludo a mim e não te apercebes do que me está a acontecer. Continuo sem ver futebol (apesar de querer saber quem ganhou), gostar de computadores e fazer contas de cabeça. Aprendi que sou alérgica ao calor, mas nunca mais desmaiei porque evito fazer coisas que puxem por mim até que arrefeça. Gosto de ver filmes pela noite dentro, de não aparecer em fotografias e de filmar detalhes. Apesar do sorriso fácil, observo-te compulsivamente à distância enquanto tento procurar um momento em que falhes. Um momento que cruzemos o olhar, um momento em que o teu sorriso trema, um momento que me mostre o que sentes. Mas tu continuas impávido e sereno, enquanto eu insisto no meu sonho onde mentes.

Queria falar-te de nós, mas não sei fazê-lo sem falar de mim.

domingo, outubro 28, 2007

Ninguém me vê

Eu continuo o mesmo desde que o sr. Silvino me mandou construir, mas ninguém me vê assim. Lembro-me de cada pormenor do meu crescimento que ele supervisionava com extremo cuidado. Cada curva na pedra talhada, cada azulejo pintado à mão, cada rodapé de madeira, cada vidro colorido. Lembro-me da satisfação dele ao conhecer o primeiro andar, o andar onde ele e a noiva iam morar e que era totalmente distinto dos outros. Tinha um salão enorme com umas janelas que ocupavam praticamente a parede toda, penso que as janelas eram para deixar sair o calor e luzes dos bailes semanais e encontros de alta sociedade.

Como recordo esses tempos... gente e mais gente! Todas as noites aparecia alguém, todas as noites se lia qualquer coisa ou se ouvia um piano. As pessoas que passavam na rua olhavam-me de alto a baixo e sonhavam que um dia estariam protegidas pelas minhas paredes, embaladas na minha acústica. Lembro-me do primeiro bébé que nasceu cá em casa. O bébé chorava horas a fio, mas foi mais perturbador quando cresceu! Procurava fazer buracos em todos os rodapés e tirar-me alguns azulejos, mas quem sofreu mais foi a mobília... as cadeiras então! De qualquer modo, resistíamos e alegrávamo-nos de ver o futuro de quem ia cuidar de nós e proporcionávamos-lhe as melhores memórias que conseguíamos naqueles anos de vivência conjunta. Nunca uma cadeira se partiu com uma criança em cima, nunca uma escada deixou que alguém escorregasse. Mas chegou o dia em que o sr. Silvino morreu, a mobília foi desaparecendo, o século foi passando muito depressa e a fortuna amealhada esbanjou-se ainda mais depressa. Já não sei quem é realmente o meu dono, mas sei que me dividiram a alma e que estou partido em minúsculas caixinhas alugadas com o mínimo de conforto a pessoas que não me conhecem, nem querem conhecer.

As pessoas olham para mim e não vêem nada além da cor perdida dos meus anos e do cinzento escuro que é largado pelos escapes dos carros que passam à minha porta. Não há piano de noite, não há ninguém que me olhe e queira entrar. O salão já não existe, não há música, não há calor. As minhas paredes não têm com que se alimentar e vão ficando mais fracas. Ninguém vê os lindos acabamentos em pedra, nem o facto de cada azulejo ser único. Ninguém sabe os namoriscos que escondi e os que as varandas revelaram. Fingem que não me vêem sem cor e a cair a cada minuto que passa. Se se interessam, querem demolir-me porque neste local poderia estar um hotel ou um prédio novo, mais alto e que levasse mais gente. Ninguém se lembra do que sou, ninguém me vê.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Um terraço chamado desejo

É normal sonhar acordada, mas tenho tendência para recuar uma série de anos e parar no mesmo momento do meu passado. Nós, o terraço da minha antiga casa e a falta de luz que nos propiciava uma vista espectacular da noite estrelada (que nós não aproveitámos muito... astronomicamente falando). Sempre que me deixo afundar nesta memória, sinto os sonhos e a realidade a esbaterem-se, sinto toda a curiosidade que tinha por ti a voltar, rodear-te e a alterar a minha percepção de ti e de tudo o que nos envolvia. O ambiente destilava um suave odor a magia, pura e simplesmente por te ter comigo.

O meu subconsciente ondula em torno de ti. Sinto as emoções a voltarem como se nunca tivessem partido e sinto-me a deslizar para quem era, estremeço a cada toque mais subtil ou suspiro mais profundo. Sinto-me etérea na teia de sentimentos que me provocas. É como se estivesse presa a esta sensação sem poder fazer nada para me libertar, mas ao mesmo tempo estou livre e delicadamente suspensa no ar pelas asas invisíveis que me dás. Mas pouco antes estava triste e isso ainda me consumia vagarosamente na tua presença. Desejei que conseguisses sorver essa tristeza quando (se) finalmente me beijasses. E beijaste, não foi um atabalhoado primeiro beijo, foi um beijo comprido e a sério, cheio de vontade. O meu primeiro beijo como nos filmes. Pouco tempo depois, seguraste-me e fizeste-me subir as escadas até ao terraço sem nunca tirares os teus olhos de mim. Colocaste-me entre ti e o parapeito e aproximaste-te até o teu corpo tocar completamente no meu. Num lapso de confusão afastei a cabeça por reflexo, mas fechei os olhos de prazer quando me beijaste o pescoço. Senti os teus braços a percorrer o meu corpo todo e deixei-te fazer o que quiseste. Segurei o cabelo para te facilitar a descoberta do pescoço e costas, mas sei que apesar da entrega não fiz mais do que o indispensável, parecia uma boneca de trapos nas tuas mãos. Deixei-me ser seduzida, voou tudo. Ficámos apenas nós e eu deixei de me preocupar com o que quer que acontecesse. Deixei-te fazer tudo, achei que aquela noite era só uma noite. Lembro-me da camisa aberta com um puxão teu, da luz fraca que incidia nos nossos corpos e as marcas cor de prata que a saliva deixava para trás. Lembro-me de verdadeiramente adorar o modo como olhavas para mim, ser objecto do teu desejo era digno do meu maior sonho.

Despedi-me de ti com um beijo cheio de intenção que não sei se percebeste. Tremia de prazer ainda, não estava a pensar sequer. Despedi-me sem palavras, apesar de depois ter sonhado com mil e um fins diferentes onde acabo eventualmente por dizer algo, uma declaração, uma piada, algo inteligente, algo estúpido, algo que desse a entender que percebia o que se ia passar a seguir. Algo que marcasse a despedida do que, naquela altura, parecia ser mais loucura nocturna e muito desejo reprimido do que um marco na minha vida. Naquela ignorância de descoberta infantil, nunca pensei que aquela noite me fosse marcar para sempre.

E cá estou eu, a percorrer com a imaginação e os meus dedos tudo o que queria reviver dessa noite... continuo a querer ser o teu objecto de desejo.

sábado, setembro 29, 2007

A suavidade do caos

A lua esqueceu-se de aparecer esta noite. Sinto tanto a tua falta que nem saberia dizer por palavras o aperto que sinto cá dentro, tira-me a fome e a vontade de fazer coisas complicadas, apetece-me ficar na cama agarrada aos meus joelhos e a balançar-me devagarinho enquanto olho pela janela no tecto. A cama rente ao chão e a janela que deixa entrar o luar directamente sobre a minha fronha como eu sempre quis. Luar que não existe, está tudo enevoado... a Natureza nem me dá o prazer de observar uma tempestade. Espero que a lua esteja a iluminar-te por onde quer que andes.

Esta manhã estava carregada de Inverno, brutalmente fria! Não sei como arranjo coragem para escapar aos lençóis e ao calor que a proximidade do teu corpo generosamente me dá. Não sei como me visto entre arrepios de frio, como não faço mais caretas quando o leite frio me toca nos dentes, como visto o casaco e agarro no guarda-chuva com segurança. Quando cheguei, custou-me a abrir a mão com que ainda segurava o guarda-chuva, doíam-me as costas de estar encolhida, mas mesmo assim o calor da minha secretária era convidativo. Distraí-me um bocado com estas coisas todas do início do ano lectivo e cheguei a casa mais tarde do que queria. Vim cheia de vontade de te encontrar, de partilhar contigo uma ou outra banalidade diária, ouvir o que tens a dizer, saber de ti, olhar-te nos olhos... queria tanto sentir-te! Não te chamei alto porque achei que não estavas em casa, a mesa estava limpa, o sofá desocupado e o computador desligado. Não sabia se ainda não tinhas jantado ou se não ias jantar em casa, não era assim tão tarde. Vi o telemóvel e não tinha qualquer mensagem ou chamada tua. Perdi a fome. Depois de comer uma ou duas peças de fruta e de perder mais tempo do que o que devia a ler notícias na Internet, desisti de esperar por ti.

Não imaginas o meu espanto ao ver-te já deitado. Estavas a dormir com um aspecto tão calmo e eu sem sono nenhum... As perguntas estilhaçavam na minha cabeça sem piedade nenhuma. Por onde tens andado? Ouviste-me chegar? Porque é que te deitaste tão cedo? O que tens feito? O que te fez rir hoje? Apeteceu-te partilhar alguma coisa comigo? O que queres fazer no fim-de-semana? Será que já tens tudo planeado sem mim... outra vez? O que se passa connosco?? Já não consigo saber o que pensas. Sinto que devia conhecer-te melhor do que conheço, sinto que devia acordar-te e perguntar por ti. Sinto que devo lutar por nós mas nem sei por onde começar ou se ainda queres lutar ao meu lado. Mas não sou capaz de te perturbar, nem de te tocar... vesti a camisa de dormir, sentei-me na cama longe de ti e apertei os joelhos contra o meu peito com força. Sinto que te perco a cada suspiro lento que dás e não faço ideia de como inverter as coisas. A frustração que sinto é como uma mancha preta que se alastra indefinidamente dentro de mim e me faz sentir muito pesada, cansada e perdida. Solto finalmente uma lágrima de incompreensão e outra... e uma cascata delas, ao mesmo tempo que a tempestade rebenta e abafa os meus soluços.

A água serpenteia na sua elegância, as gotas ritmam a noite e tu dormes com ar tão calmo. Eu era capaz de ficar a olhar para ti a noite toda, és lindo. Está tudo delicadamente vivo e suavemente pintado ao meu redor... e eu sinto-me uma supernova.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Sétima pista: no fim do arco-íris

(continuação)

Corri pela rua, desejei poder empurrar o metro para ir mais depressa, corri pela estação, corri durante todo o caminho que me separava de ti e só parei quando te vi. Só aí o meu coração desatou a bater atabalhoadamente e eu senti uma certa incapacidade em manter-me de pé. Tu viste-me assim que cheguei, imagino a minha figura... cabelo desgrenhado, o livro dos três mosqueteiros numa mão e uma mala pesada na outra. Estava parada feita estátua a olhar para ti. Levantaste-te e viraste-me costas, sem cerimónia nenhuma, em direcção a uma barraquita de gelados. Tive que reunir muito esforço mental para decidir qual das minhas pernas ia avançar primeiro e não me esquecer de avançar a outra a seu devido tempo. Fui deixando de respirar conforme a distância entre nós encurtava e parei completamente quando fiquei frente a frente contigo e me ofereceste um gelado.

- Magnum clássico? - ofereceu-me ele.
- Exacto, ainda te lembras... obrigada. Pensava que te tinhas ido embora? - estava mais que entalado na minha garganta e fui incapaz de reter para deixar sair um "olá" ou "que bom rever-te".
- Não foste despedir-te de mim - apesar de tudo, o tom dele não era zangado.
- Pois... hum... é horrível reconhecer isto, mas não tive coragem. Desliguei o telemóvel para não te dar hipótese de te despedires porque não te queria ouvir a dizer adeus e depois, quando já sabia que o avião tinha levantado, fiquei quase a odiar-me por não ter ido. Fiquei tão decepcionada que nem tenho saído de casa, é verdade. Pensava que era mais forte, devia ter lá estado, queria dizer-te coisas que achei que não tinha direito, não naquela altura. Queria ter ido... devia ter-me despedido de ti. Devia ter sido mais forte... por ti - nem uma única vez levantei os olhos do chão enquanto tentava justificar-me (sem perder a voz) de uma coisa que não tinha justificação.
- Fizeste-me sofrer um grande pedaço é verdade. Telefone desligado durante tanto tempo...
- Porque voltaste? - disparei eu.
- Eu não voltei, eu nunca saí. E já devias saber disso há mais de uma semana!
- Foi por isso que me tentaste ligar mais do que uma vez? Tu não chegaste a partir?!
- Não. Vais deixar o gelado derreter? - desta vez, ele tinha um olhar divertido.
- Cancelaram o voo? Que se passou? Não te quiseram, cancelaram o contrato?
- Eu não assinei nada, não fui porque não quis. E queria dizer-te que fiquei por ti, mas tu não me deste hipótese porque nunca chegaste a aparecer!
- Ah... - uma pessoa diz-nos uma coisa destas e a coisa mais inteligente que temos para dizer é um "ah"... eu sou triste.
- Resolvi fazer isto para te fazer sofrer um bocadinho e também para te fazer sair de casa, a tua mãe disse-me que não tens saído desde que... pronto. Na altura fiquei sem saber bem o que fazer. Não me disseste nada, nem na altura nem depois! Já não sabia se tinha feito bem ou se realmente devia ter ido naquele avião.
- Não!! Não devias nada ter ido embora! - saiu-me completamente sem aviso, inspirei devagar - Bem, eu nem sei qualificar a minha reacção ou falta dela. Muita falta de bom senso, é verdade! E sim, isto é eufemismo. Mas quero que saibas que desejei sempre que fosses tu por detrás disto. Em cada pista que descobria, cada passo até aqui, sonhei que ficava mais perto de ti... ajuda-me nalguma coisa? - ri-me do nervosismo.
- Ah sim? E como é que me vais convencer disso? - respondeu-me num ar trocista.
- Eu posso provar! - finalmente um sorriso da minha parte.
- Podes?... Como?
- Rima com varicela! - respondi eu, finalmente orgulhosa de qualquer coisa que tinha feito.

Entreguei-lhe o meu gelado ainda por abrir e tirei a caixa de chocolates da mala, o meu pequeno triunfo. Mostrei-lhe com um orgulho incomparável.

- E não é que valeu mesmo a pena esperar por ti?! - ele estava genuinamente surpreendido e não conteve uma gargalhada.
- Ora... há coisas que nunca mudam! - respondi eu com o maior sorriso de há muitos dias.

Rimo-nos com vontade, enquanto os gelados se derretiam. Aproximámo-nos um do outro (com cuidado para não esmagar os gelados) e ele deu-me um beijo sem bom senso nenhum, felizmente. Não tirámos os olhos um do outro durante o resto da tarde. Só o via a ele e era incapaz de imaginar a quantidade de pessoas que passeavam, iam e vinham à nossa volta. Parecíamos dois miúdos acabados de abrir todos os presentes de Natal e depois descobrir que eram exactamente o que tínhamos pedido. Rebolámos nas imperfeições da relva, rimos, falámos imenso, respirámos um para o outro... Por fim, resolvemos parar para descansar debaixo de uma arvorezita, eu fiquei sentada na relva ao colo dele. Olhei para os meus pés por nada de especial, simplesmente porque estavam no meu horizonte. Senti-me a transbordar de alegria, alegria por nada em particular, apenas felicidade pura por tudo. Senti-me demasiado pequena para guardar tanta alegria, senti-me demasiado minúscula para merecer tanto. Há pessoas que durante uma vida inteira não têm um só momento daqueles. Enchi-me de coragem para dizer tudo o que tinha guardado dentro de mim, e do meu quarto, nos últimos dias.

- Desta vez tenho que te pedir para ficares comigo. É egoísta, eu sei, mas quero sentir-me assim sempre que puder. E tem que ser contigo, normalmente não consigo ter tantas dores nos maxilares e nos abdominais. E eu gosto que me doa o maxilar de tanto rir... Eu costumo conseguir parar de rir, sabes? E perto de ti isso nunca acontece. Quero-te, a sério.
- Eu fiquei por ti, lembras-te?
- Mas eu nunca te tinha dito isto. Nunca tinha coragem... Nem há uma semana tive e agora que pensava que tinha perdido tudo, ter isto de volta é quase bom demais. Eu não mereço, mas queria dizer-te que te quero comigo alto e bom som para não teres que adivinhar ou ficar na dúvida sobre o que eu penso sobre ti... nós.
- Bem, mereces qualquer coisa, afinal chegaste ao fim do jogo mais rápido do que eu supunha... e acertaste na caixa de chocolates! E eu queria ouvir-te dizer isso... finalmente.
- Isso é um sim? - se o meu coração continuasse a bater assim, ia precisar de um transplante.
- Que remédio!...
- Até parece!
- Pronto, pronto... sim, claro! - e abraçou-me num sorriso brilhante.
- Assim está melhor.
- Achas?
- Não... tenho a certeza! Sinto-me como se tivesse descoberto o pote de ouro!
- Qual pote de ouro?
- O do final do arco-íris.
- Qual arco-íris?... Ok, esquece, tu és estranha... Chega p'ra cá!

sexta-feira, setembro 07, 2007

Sexta pista: a nossa história está na História

(continuação)

Subi alguns degraus até à entrada do museu e fiquei algo espantada por ver lá o João!

- Por cá?
- Olá! Então que andas por aqui a fazer?
- Eu... olha, vi publicidade à exposição temporária e vim cá dar uma vista de olhos! Quanto custa?
- É grátis, está patrocinada por um banco qualquer.
- Ah, ok! Vou dar uma vista de olhos... que fixe ver-te aqui! A ver se nos encontramos um dia destes.
- Espera, toma lá o folheto com o mapa cá do sítio! Viras ali à direita para começar.
- Obrigada!

Pisquei-lhe o olho e segui pelo corredor, virei à direita tal como ele me disse, mas o local estava cheio de setas de qualquer modo. Cocei o pescoço por reflexo. Entrei na sala e fiquei maravilhada com algumas peças, fico sempre perdida não só pelo modo como está tudo tão bem pintado, desenhado e “recortado” como pelo facto de tudo aquilo ter uma mensagem subjacente e um significado que eu não compreendo totalmente. Senti que a minha busca pela sétima e última pista tinha toda a lógica em estar ali. Mistérios e mais mistérios que não vão ser desvendados porque já se perderam no tempo. Nas areias do tempo é capaz de ser uma expressão mais conveniente...

Depois de ter demorado imenso tempo a ver a sala (tinha tempo), abri o mapa para ver para onde tinha que me dirigir e descobri que o meu mapa não era apenas da sala, nem sequer da exposição ou do museu. O meu mapa estava “ligeiramente” alterado. Conseguia ver alguns corredores do museu, mas tinha outro mapa desenhado por cima. Era um mapa da cidade, ou parte dela, e tinha uma bola encarnada no sítio do museu. Essa bola encarnada era a referência à sala temporária onde me encontrava no mapa original. Um bocado a custo, lá entendi que a exposição tinha apenas outra sala do outro lado do corredor e dirigi-me para lá. Não vi grande coisa da segunda sala, tinha bem presente que tinha andado a última hora e tal com a sétima pista nas mãos e nem um olhar lhe tinha deitado... Apercebi-me de repente que o João também estava metido naquilo! A minha esperança acendeu de novo e tive bastantes dificuldades em acalmá-la, a caixa na minha mala também não me ajudava a esquecer do que eu queria acreditar.

Olhei para o mapa com cuidado, visto não me conseguir concentrar nas jarras canópicas onde os egípcios colocavam alguns orgãos dos mortos (sim, dos vivos era capaz de ser chato). O mapa não estava completo e a única coisa realmente desenhada era o local do museu e do rio. Mas não estava propriamente claro em que zona do rio é que estava a resposta e o raio da cidade está praticamente rodeada de água! Reparei melhor no mapa original e existia um quadrado onde alguém tinha pintado quatro quadradinhos por cima das pontas do quadrado original. O quadrado grande ficava mesmo na zona do rio, supostamente seria uma sala qualquer no primeiro piso do museu, mas ali podia muito bem significar uma plataforma quadrada no rio... E aquela forma de plataforma não era completamente desconhecida. Estava tão contente que deixei as múmias para a próxima visita, elas também não iam longe. De qualquer modo, ainda me demorei na loja do museu onde comprei um escaravelho para recordação. Na saída voltei a passar pelo João.

- Safado, estás metido nisto!
- Não acredito que só te vais embora agora. Pensei que já tivesses saído e eu não te tinha visto!
- Só reparei agora no mapa adulterado que me deste! Eu sou um bocadinho lenta, tens que ter paciência e...
- Despacha-te, vai lá embora depressa, mexe-te!
- Mas qual é a pressa?
- É que eu já avisei que tinhas saído...
- Ah sim? Quem é que avisaste? Como sabes que vou para o sítio certo? Ajuda-me!
- Ora, deixa-te lá disso, pisga-te!!
- Se fosse contigo queria ver...
- Despacha-te miúda!! Ele está à espera, não tarda perdes o pôr-do-sol!

sexta-feira, agosto 31, 2007

Quinta pista: do esterco ao sol

(continuação)

Uma das primeiras coisas que aprendi sobre estes escaravelhos (e que adorei) é que simbolizavam o deus-sol. Ora o que é que este deus fazia? Entretinha-se a mover o sol no firmamento, o que é extremamente parecido (ou não) com um escaravelho a mover a sua bola de excremento. Sim senhora, temos um escaravelho que gosta de colocar os seus ovos em locais pouco... comuns, vá. Está ligado ao deus-sol, assim como ao renascimento, renovação e ressurreição. A primeira coisa que me ocorreu foi a campanha dos R's para apelar à reciclagem. A minha mente aterrou literalmente no Egipto e o meu pensamento estava todo enrolado em hieróglifos. Via escaravelhos, burros, o Romeu e a sua Julieta a escrever postais, além de uns tantos escaravelhos a sair da fonte da rotunda lá em baixo.

O que me chamou à razão e devolveu à terra com alguma racionalidade foi o meu estômago: comida! Pois sim, já era quase hora de almoço e eu não tinha preparado nada. Apesar de me apetecer fazer qualquer coisa para me distrair, só via escaravelhos à frente portanto decidi ir almoçar fora. O barulho dos carros e das pessoas distraiu-me facilmente das areias e pirâmides egípcias, mas continuava com os escaravelhos à volta. Especialmente depois de ler que um “primo” africano desses escaravelhos podia atingir os 9cm. Isso é quase a minha mão aberta, uma escala no piano! Se um destes me aparecesse à frente, ainda era capaz de esfregar os olhos umas duas vezes para ver se estava a ver bem antes de fugir.

Lá desci a rua alegremente, com a mala a tiracolo e um livro na mão, livro esse cheio de bilhetinhos e um postal. Entrei num restaurante qualquer que me pareceu ter uma lista simpática para sábado e escolhi um lugar virado para a rua. Cada vez que saio de casa é para ir para longe, até me esqueço de sair e passear nas redondezas. O facto de estar ali sentada a olhar para a minha rua de sempre causava-me um certo bem estar pela noção de familiaridade. Suponho que as surpresas já estavam em grande número só para um dia e permiti-me a um certo relaxamento. Olhei em volta para chamar um empregado e reparei que alguém tinha deixado um daqueles jornais grátis que distribuem no metro em cima de uma cadeira. Resolvi folheá-lo só para passar o tempo. De repente voltei a sentir-me estúpida, mas desta vez era uma mistura de estupidez e ignorância pura.

Num dos cantos reservados à publicidade, lá estava um aviso sobre uma exposição egípcia com algumas coisas trazidas de outros museus europeus. Uma exposição egípcia ali na minha “terra” e eu não tinha dado por nada?! Tenho mesmo que prestar mais atenção ao sítio onde vivo. Confesso que fiquei altamente envergonhada e, apesar de não saber quem estava por trás das pistas, desejei secretamente que não se tivesse apercebido daquela minha falha. Soava-me a coisa grave, afinal, eu nunca fui uma grande fã de História, mas a coisa mudava de figura quando o Egipto, a Suméria ou a Grécia entravam em cena (não por esta ordem, claro). O almoço chegou finalmente... tentei comer devagar, mas a excitação e curiosidade cresciam tanto dentro de mim que me vi no metro enquanto o diabo esfrega o olho. A viagem ainda demorou um bocado, mas quando saí da estação e olhei os grandes cartazes com escaravelhos na parede do museu, senti o dever cumprido. Mesmo que não descobrisse a sétima pista, tinha chegado à sexta e isso tudo numa manhã de sábado era de louvar.

sexta-feira, agosto 24, 2007

Quarta pista: recordar é viver

(continuação)

Uma vez fora da loja, encostei-me a um canto do passeio e abri o telemóvel para ver a MMS. Era novamente de ninguém (por assim dizer) e demorei um bocado a perceber o que era a imagem. Ao fim de olhar para a imagem umas tantas vezes, reenviei-a para um amigo meu especializado no assunto com o seguinte texto: “Isto é o dartacão, não é?!”. Só não levantei o sobrolho enquanto reconhecia a imagem porque não consigo fazer isso só com uma sobrancelha. Mas continuo a achar que dá estilo conseguir e é útil, em situações como esta, por exemplo. A resposta foi mais rápida do que eu esperava: “Yeah, mas porque é que queres saber?”. Se eu soubesse a resposta... Pelo menos tinha a certeza do que os meus olhos viam e o meu cérebro não queria acreditar: o dartacão era a minha quarta pista. Sim senhor, mais estranho começava a ser difícil.

Voltei para casa e usei essa bela ferramenta que dá pelo nome de “You Tube”. Confesso que me agradou rever o genérico dos desenhos animados. Reparei também numa mensagem simpática que aparecia e que eu nunca tinha dado conta, qualquer coisa como “esta série baseada na história de Alexandre Dumas pretende enaltecer duas virtudes que nunca devem ser esquecidas: honra e amizade”. Catita, sim senhor! Ora Alexandre Dumas (pai)... eu tinha a certeza que dele só tinha o “O conde de Monte Cristo”, portanto a pista não devia ser por ali. Estava a começar a ficar com umas ideias muito retorcidas e já achava que a pista tanto podia estar no meu cão (que não tem muito de mosqueteiro, nem de moscãoteiro, já agora), como no facto da cadela se chamar exactamente Julieta e estar ligada ao livro “Romeu e Julieta”. Pelo sim, pelo não, saí e fui até ao jardim. Chamei o meu cão, brinquei com ele e examinei-lhe a coleira com cuidado, apesar dele não estar a achar muita piada ao facto. Deixei-me estar a brincar um bocadito mais com ele, só para ter a certeza que não o ia levar ao veterinário e que ele escusava de fugir.

Segunda ideia mirabolante: Shakespeare. Esta ideia ainda era pior do que a outra porque, novamente, eu tinha o livro errado. Li vezes sem conta o “Sonho de uma noite de Verão”, mas não metia o dartacão (só um homem transformado em burro) nem a Julieta. No final, decidi abrir também o exemplar de “O conde de Monte Cristo”, mas não tinha lá nada que me ajudasse sem ser a história (belíssima por sinal, a personagem da “escrava” Haydée seduziu-me por completo). Perdi-me um bocado a relembrar estas histórias e a pensar em como o ódio pode ser quase tão bom como o amor no que toca à sobrevivência. Entretida pela redescoberta destas “grandes” histórias perdidas na minha memória, percorri as várias prateleiras de livros que tenho quarto. Muitos livros de Júlio Verne, um dos meus autores favoritos. E eis que no final da prateleira mais alta estava um exemplar dos três mosqueteiros de Alexandre Dumas, bem arrumado e mais perto da minha testa do que dos olhos, parecia ter estado sempre ali.

Abri o livro, virei-o do avesso e abanei-o vigorosamente. Caiu um pequeno rectângulo de papel branco. Estava manuscrito com letras maiúsculas: “NUNCA LI O LIVRO, MAS DIZEM QUE É BOM. ATÉ GOSTEI DO FILME. NEM ACREDITO QUE NÃO O TINHAS! SÓ ME DÁS TRABALHO! JÁ AGORA, PODES FICAR COM ESTE” Virei o papel ao contrário e tinha um escaravelho egípcio impresso, daquele tipo dos que vemos nos filmes a “comer” pessoas, como na “Múmia”.

sexta-feira, agosto 10, 2007

Terceira pista: usar a realidade

(continuação)

Liguei o computador novamente, mas desta vez fui direitinha ao mail. Lembrei-me da última pesquisa no google e como podia ter visto o mail mais cedo. É certo que agora não podia fazer nada, mas não conseguir evitar a sensação de que podia ter chegado ali mais depressa. O triste de ter mais de uma conta para estas coisas é que nunca sabemos exactamente quem usa qual. Abri todas e fiquei ansiosamente à espera de um mail sem “viagra” no cabeçalho. Antes de desanimar por completo, li o SPAM de alto a baixo. Efectivamente o filtro fez uma boa separação (não pode correr sempre mal). Estava desolada, ou não tinha percebido qual mail era o certo, ou realmente a pista não apontava para ali. Ora bem, já que estávamos em Portugal, dirigi-me ao correio em cima da mesa da entrada. Vasculhei as contas todas e não encontrei nada digno de registo. Lá me calcei e desci até à caixa de correio. Finalmente qualquer coisa! Um postal ilustrado sem selo. Pareceu-me bem, soava a pista. Não tinha nome, mas tinha uma rua.

Sentei-me ao computador (novamente), procurei onde é que a rua ficava e não fui lá muito bem sucedida. Procurei nos mais variados sítios e nada, a rua não existia e se existisse não era neste país, o que não me ajudava em nada de qualquer modo. Ocorreu-me subitamente que mais importante do que saber o que se escondia no postal era mesmo tomar o pequeno-almoço. Saí de casa, mas só depois de inspeccionar rapidamente todas as divisões em matéria de candeeiros ou coisas estranhas deixadas nos móveis. Nada... decidi então dar toda a minha atenção a um croissant de chocolate na pastelaria no final da rua. Quando acabei, tirei o postal da mala e fiquei a olhar para ele. Não tinha selo, não tinha nome, não tinha mensagem, só aquela rua “desaparecida”.

Apesar de tudo, tinha um forte pressentimento dentro de mim. Saí da pastelaria, percorri as ruas banhadas com o sol fraco das dez da manhã (vista rara para mim) e entrei num supermercado mais escondido, mais calmo. Não saía de casa com vontade de ver nada há alguns dias, achei que a dor estava a passar, mas pelas razões erradas. Não entanto, não evitei um leve sorriso quando vi que ainda havia uma caixa, comprei-a, escondi-a dentro da minha mala e esperei que o meu sexto sentido, tão poucas vezes usado, estivesse certo. Se calhar era só uma dose gigantesca de esperança seguida de um grande balde de água fria. Tentei não pensar que estava certa, era melhor esperar para ver. Mas a luzinha cá dentro recusou-se a apagar, o que me obrigou a escondê-la o melhor possível para não pensar nela. Nestas voltas onde brigava com o meu próprio pensamento, dei por mim na rotunda mais bonita e mais movimentada ali do sítio. Parei por momentos a olhar para a estátua a jorrar água, impassível no meio de tanto carro e senti-me mesmo estúpida.

Estúpida por duas razões (e haviam mais de certeza, mas pronto), primeiro porque tinha parado de repente no meio do passeio e levei com uma gorda qualquer, em segundo porque aquela rotunda era a imagem do postal! Incrível como não ligamos às coisas perto de casa, bem que a imagem do postal me parecia familiar mas, pronto, fontes em rotundas é o que não falta nas capitais europeias. Senti um nervoso miudinho a correr o meu corpo porque não sabia o que fazer a seguir. Resolvi rodear a rotunda a pé, podia ser que me estivesse a escapar algo. Quando dei precisamente metade da volta, olhei para o sítio de onde tinha saído e vi um pequeno quiosque com alguns postais num mostrador exterior. Disse algumas asneiras entre dentes e voltei ao sítio de onde tinha saído. Vi imensos postais iguais ao meu enquanto entrava na loja. Eu levava o postal na mão e a moça que estava a atender reparou nele. Riu-se e só me disse:

- Não estava à espera que chegasse cá tão cedo!
- Estava à minha espera?!

Não me respondeu, mas riu-se e achei que a minha pergunta era retórica de qualquer modo. Ela pegou num telemóvel, pediu-me para esperar e, pouco depois, foi a vez do meu telemóvel tocar. Ri-me desconfortavelmente e suponho que tinha um ar de quem não controla nada do que se está a passar, um bocadito miserável porque comecei a duvidar se conseguia chegar ao fim.

- Não fique assim! Vai ver que é uma boa surpresa!

E piscou-me o olho. Eu acreditei. Acreditei numa pessoa que eu nunca tinha visto na minha vida. Acreditei porque obviamente ela fazia parte do jogo e eu não tinha como duvidar. Fiquei com a ideia que Lisboa inteira sabia o que eu não sabia. O que estava no final das sete pistas. Lembrei-me do pote de ouro no final do arco-íris... que também tem sete cores. Desejei que não fosse ouro, de qualquer modo. Respirei fundo e ainda perguntei, antes de olhar para a MMS que tinha acabado de chegar:

- Não me vai ajudar a decifrar, pois não?
- Não, até porque não sei o que é. Mas mesmo que soubesse, acho que prefere chegar lá sozinha!

Se calhar nem preferia, mas pronto, não tinha hipótese. Agradeci e comprei uns rebuçados só para não parecer muito mal-educada. Estava um bocado atordoada.

sexta-feira, agosto 03, 2007

Segunda pista: não desmoralizar

(continuação)

Enquanto vasculhava as gavetas todas da minha cómoda, pensava como raio não me tinha apercebido que o baton era importante assim que vi a seta marcada na minha pele. Eu não uso baton, portanto foi trazido por alguém e deve estar algures no meu quarto... desejei intimamente que estivesse naquela cómoda porque a minha maior qualidade não é a arrumação, definitivamente. Chateei-me um bocado, tirei as gavetas e virei-as todas do avesso. Mas nada de baton. Senti-me um bocadito frustrada, a descoberta da primeira e ousada pista tinha despertado ainda mais a minha curiosidade. Sem ligar ao cabelo molhado, estendi-me no chão com a máquina fotográfica (porque a cama estava cheia da tralha das gavetas) e passei as fotografias das minhas costas. Ao fim de uns dez minutos, o sorriso no final da frase já me parecia um completo gozo à minha incapacidade de entender o que estava escondido na frase. Por fim desisti e posei a máquina ao meu lado, fechei os olhos e tentei distanciar-me das últimas ideias mirabolantes (porque, pelo menos, tinha a certeza que a Praça Vermelha e o Kremlin não tinham nada a ver com isto). Quando tirei as mãos da cara, posso dizer que passei a ter uma outra perspectiva do meu quarto: o tecto. E lá estava o baton preso ao candeeiro, oscilava perigosamente pendurado apenas por uma ponta de fita-cola. Pergunto-me se não terei dado sinais de que estava a despertar para aquilo ter ficado colado daquela maneira. Agora a única coisa que se metia entre mim e o candeeiro era a minha altura, mas nada que uma cadeira não resolvesse (sim, porque aquilo aos saltos não foi lá). Finalmente agarrei o baton e fiquei a pensar que se fosse um episódio do CSI, tinha posto umas luvas e tirado uma impressão de uns milímetros de dedo, mas que mesmo assim dava para encontrar o responsável pelo jogo em menos de cinco minutos.

Olhei para o baton, não percebia nada daquilo, mas duvidava que fosse coisa de qualidade... aposto que foi comprado numa loja em bico! Depois de muitas voltas ao baton, não descobri grande coisa, mas era óbvio que era ali que estava a minha segunda pista... afinal, os batons não se penduram nos candeeiros porque gostam de praticar queda livre. Resolvi secar o cabelo e deixei o baton à minha frente, talvez esperançada nalguma espécie de telepatia. Depois de vestida e perfeitamente acordada (ou seja, já tinha desistido de comunicar mentalmente com o objecto), tentei desenroscar o baton, mas só consegui sujar as mãos. Lá fiquei eu frustrada a olhar para a peça e resolvi usar a única ferramenta que sabe tudo: o google! Lá procurei por entre dezenas de imagens alguma coisa parecida com aquela e fiquei a achar que era tudo muito igual. Decidi então procurar a referência da cor, podia ser que ajudasse nalguma coisa. Passados menos de cinco minutos, achei que sofria de daltonismo e desliguei o computador. Um bocado chateada, atirei o baton para cima da cama e nesse preciso momento lembrei-me da fita-cola, ainda presa ao candeeiro (tal como eu disse, o meu forte não é a arrumação). Será que a pista estava na fita-cola?! Lá fui outra vez cheia de esperança, bati na cómoda porque saí a correr do quarto, mas nem senti nada tal era a excitação quando cheguei à secretária.

Enrolado na parte de dentro do rolo da fita-cola estava um papelito colado também com fita-cola. Tirei-o com cuidado para não rasgar nada e li em voz alta:

Muito bem! Espero que o candeeiro ainda esteja colado ao tecto (estupor, pensei eu) E agora suponho que estás por tua conta!

Achei que esta pista era finalmente fácil...